Translate

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Semana política na sociedade do espetáculo

Quanto mais vivemos tempos líquidos, pós-modernos, flexíveis etc., mais se exige de quem está em contínua evidência exibindo sua imagem. Imagem é tudo no século XXI. Trocam-se facilmente ideologias por aspectos da intimidade de alguém. Porém, não significa que possamos simplificar as consequências disso.

Por esses dias, andamos lidando com situações que mostram como tudo está longe de se simplificar. Um deputado federal com longo histórico de declarações cheias de ódio (cujos mandatos parecem ser assumidos com o único compromisso de falar na TV contra grupos inteiros da sociedade) apenas na segunda-feira foi descoberto como homofóbico e racista, devido a se expressar em horário nobre no CQC. É interessante que a admiração pública por símbolos da ditadura não surtiu indignação. Os protestos vieram porque uma das perguntas que deu espaço para declarações racistas foi feita por Preta Gil, conhecida celebridade de programas de TV. Preta teve, assim, uma grande oportunidade para se manifestar publicamente em defesa dos direitos humanos, o que tem feito bem em diversas entrevistas. A OAB mostrou-se igualmente pós-moderna. Afinal, a histórica instituição não havia feito representação contra as outras manifestações do deputado, mas manifestou-se rapidamente quando ele esteve na TV, esquecendo da imunidade parlamentar sobre crimes de opinião em nome da proteção aos direitos humanos na audiência televisiva.

Em outro momento de uma semana excêntrica, uma outra celebridade chamou a atenção dos meios de comunicação. Anunciou a própria morte no twitter e deixou uma carta para ser publicada na Revista Caras. Estes são tempos difíceis, tempos em que a Caras exibe testamento. Mas, algo mais ocorreu. Devido a declarações da falecida contra seu ex-companheiro, uma ação judicial impediu a publicação da carta na revista. Assim, uma publicação voltada a mostrar a intimidade dos ricos e famosos chegou às bancas com uma tarja preta. Não por ser uma droga, mas por se julgar censurada. Há sempre um momento em que aqueles que lá publicam podem lembrar que são jornalistas e lutar por sua liberdade de expressão, mesmo sobre a vida alheia. 

A semana foi tão fora do normal que até José de Alencar morreu, o que parecia que nunca aconteceria. Um homem que poderia ser lembrado por seus patrocínios a partidos de aluguel tornou-se herói nacional não por feitos políticos, mas, em fenômeno típico do culto à personalidade acima de ideias em nossos dias, por sua luta contra o câncer. O que é nobre que façamos na homenagem ao ex-vice-presidente (afinal, que raios de poder tem uma denominação como essa?) é preocupante se examinarmos de modo amplo. Já pensou se o deputado fascista sobre quem eu falava é descoberto como portador de alguma doença crônica ou terminal? Será que a biografia de alguém pode ser apagada em nome dos últimos anos de intimidade como doente? Será que doença apaga o passado e santifica? Está sendo desperdiçada nos meios de comunicação uma boa oportunidade para pensar sobre a transformação contínua da imagem pública das pessoas que tem sido feita com enorme facilidade.

Por falar em celebridades instantâneas, elas são de fato formadoras de opinião, afinal até qualquer opinião hoje tende a ser igualmente líquida. Sinal disso foi o encerramento da mais recente edição do Big Brother Brasil. Debateu-se a transexualidade, a autonomia sexual feminina, a bissexualidade, a misoginia,  a prostituição, apenas fenômenos ligados à sexualidade, portanto da intimidade, foram objeto de opinião. A vida humana fica restrita ao gozo e à fertilidade, mesmo que não se tenha feito sexo durante esta edição do programa. Apesar da limitação que sustenta personagens cada vez mais superficiais, tem sido possível a um amplo contingente de brasileiros acompanhar as transformações de nossas rotinas sexuais, cada vez mais diversificadas e tolerantes com a diferença do outro, por meio dos três meses de exibicionismo. 

Se as celebridades, ex-participantes de reality shows, filhos de famosos, são os formadores de opinião de nossos dias, infelizmente precisamos de fato acompanhar o que têm a dizer. Mobilizam pessoas mesmo que sem utilizar ideologias. Ideias de fôlego curto para uma sociedade com déficit político de atenção.

0 comentários:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...