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sábado, 23 de abril de 2011

Odiar pode, mas sem maconha

Nas últimas semanas, a liberdade de expressão tem sido muito comentada. Meses atrás, o alvo eram piadas racistas de humoristas. Pouco depois, um deputado fossilizado em suas ideias que propaga racismo e homofobia de boteco em rede nacional sem ficar vermelho. A ideia era sempre a mesma: quando o assunto é o que falamos, é proibido proibir.

Valia o tempo todo repetir Voltaire fora de qualquer contexto, que valeria defender até a morte ideias com as quais não concordamos, pelo direito de dizê-las. Mas o que fica da boca para fora, até frases de efeito mal parafraseadas, é fácil fácil. Tudo que tentamos defender sem limites um dia nos atropela.

Hoje, mais uma vez, militantes da marcha pela maconha foram presos no Rio de Janeiro. Não estavam fumando nem mandando alguém usar. Estavam defendendo a legalização do uso. Se houve a descriminalização do usuário, defendem que agora seja regulamentado o consumo. Se para fins medicinais, se apenas dentro da própria casa, se em estabelecimentos comerciais autorizados... que seja debatido via projeto de lei.

Alguém prendeu Fernando Henrique Cardoso? O ex-presidente entrou em cruzada com outros ex-presidentes pela regulamentação do uso da maconha. Passa por isso, em sua proposta, estabelecer limites mais claros entre uso recreativo e dependência. Talvez você discorde, talvez concorde, talvez como eu aguarde mais argumentos para se posicionar, mas creio que seja uma reflexão indispensável.

A polícia do Rio discorda e mandou os militantes se calar. Ninguém mandou o deputado falastrão nem o ex-presidente. Triste do país que não apenas não sabe distinguir entre debate e apologia ao crime, mas ainda escolhe entre os supostos delinquentes quem mereça ser preso.

Há pouco mais de dez anos, Planet Hemp era preso sistematicamente por cantar "Legalize Já, uma erva natural não pode prejudicar". Em vez de esperar se iam morder urtiga no mato só por ser natural, prenderam quem cantava a legalização, não o consumo. Como consequência, a polícia gerou mártires, a despeito da falta de qualidade do discurso na ocasião. O simplório virou regra, as autoridades converteram músicas aparentemente feitas às pressas em hinos para a militância.

Espero apenas que esta postura antidemocrática seja revisada logo. Não apenas liberem os manifestantes mas que a segurança pública não se meta em argumentos privados. Quando ofendermos alguém, que sejam cobradas judicialmente indenizações, que tenhamos chance de esclarecer difamações ou injúrias em juizados criminais. Que a apologia ao crime seja chamar para realizar um delito, não pedir a votação de um projeto de lei. Talvez seja pedir demais.

Ao menos, que não dependamos plenamente dos deputados e senadores que temos (e merecemos, uma vez que pelo menos 1/3 deles são eleitos, não suplentes nem usuários da droga entorpecente que é o coeficiente eleitoral) para defender nossas ideias no Congresso Nacional.

Por enquanto, é permitido odiar com todas as forças quem bem entender, mas é proibido fumar.

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