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domingo, 10 de abril de 2011

Frases longas por um bom debate, um dia

(Aviso: é um texto ranzinza. Se procura melhorar seu dia, volta outra hora)



Já faz tanto tempo que, creio que tanto eu quanto meus 5 leitores do blog não podemos conviver com bons debates, que por isso entendemos quando tanta gente defende qualquer deputado  racista e homofóbico com papo ruim de boteco em nome "da liberdade de expressão". Talvez caísse bem discutir os limites a essa liberdade, seja por quebra de decoro, seja por ferir grupos em desvantagem da sociedade, entre tantas outras teses possíveis... o problema é que faltam debates, então qualquer coisa tem servido.

Quando têm surgido oportunidades para debater, são mal aproveitadas. Pensemos no partido mais recente do país, o PSD. No seu lançamento, (a)fundado por um prefeito inexpressivo mas de uma grande cidade, ele se orgulha de dizer que seu partido já nasce com mais de 40 deputados, bem representado em vários estados mas que não é nem de direita, nem de esquerda nem de centro. Parece aquela piada ruim em que alguém diz "nem discordo nem muito pelo contrário" de tão confessadamente fisiologista é a legenda. Lembro do Bob Jefferson no Jô dizendo que seu partido, o PTB ("todos seus eleitores sabem", dizia ele) não defende ideias, mas como apoiar bem o presidente. Agora já está devidamente no feminino. 

Não só esses dois partidos, mas o Congresso, que deveria ser a casa dos grandes debates nacionais, anda mal. Como bem diz Itamar Franco no Senado, por meio de entrevista na Época nas bancas desde este sábado, ninguém mais estuda. Afirma o ex-presidente que, quando foi senador antes (e faz muito tempo, pelo que ele descreve), era preciso estudar muito para por em discussão os projetos antes de votar.

De Mauricio de Sousa
Talvez seja esse o mal da falta de debates. Na falta de estudos, a Academia (com "A" maiúsculo, já que cada vez mais a palavra só aparece para ginástica) acomoda-se em ideias anacrônicas à esquerda, à direita ou ao centro ou a lugar nenhum. Não é raro ver gente que deixa de falar com quem discorda, deixa mesmo de cumprimentar. É o medo de estar errado ou, pior, ter que admitir que não conhece bem do que está falando. Melhor é o monólogo em sala de aula e em congressos diante de devotos. Afinal, em congressos acadêmicos tem faltado espaço para debates. Ou "devido ao adiantado da hora" ou com debatedor oficial, já previsto na programação, que fica com o papel de explicar o que o outro falou. De vez em quando alguém diz algo destoante "só para provocar"  ou "pelo amor ao debate" com risinho bobo, mas que logo o outro responderá "É uma reflexão possível". Sempre. Quando não são esses os limites, o senso comum se confunde com debate e toda e qualquer ideia é jogada no ventilador, como se fôssemos obrigados a ouvir no ambiente de reprodução de conhecimento qualquer papo informal como verdade só por ser opinião de alguém.

Anda tão difícil ter um bom debate, que o assassino do Realengo (que as crianças descansem em paz e que suas famílias encontrem a paz que consigam seguir) faz com que mil se tornem psicólogos práticos analisando a psicopatia alheia por meio de reportagens de TV feitas horas após a tragédia. É a vontade de trocar ideias com alguém. Pena que venha sobre algo inexplicável, súbito, unicamente trágico. Pior é ver de repente o debate sobre controle das armas, esboçado por alguns apressados bem intencionados. Acontece que, como parte das políticas públicas, não dá para puxar certos debates no calor da emoção. O luto faz querer apertar mais o controle apenas porque o assassino está morto. Se estivesse vivo, a discussão apressada seria para afrouxar as armas, para que alguém pudesse matá-lo. 

Foi celebrado pelos meios de comunicação, voltando ao deputado bocudo, que em resposta aos seus arroubos o jornalista Marcelo Tas falou sobre seu orgulho da sua filha gay. Foi um ato digno, bem feito, mas lembremos que o deputado sempre falava "na minha família", "meus filhos", "com minha mulher". Recebeu como resposta mais algo no âmbito privado. Jornalista e deputado que debatem surdos um ao outro, em salas distantes e em tempos distintos (o parlamentar não estava ao vivo), sem levar seus temas a ser questão pública, mas familiar. Não me parece algo construtivo em carreiras que teriam ali oportunidade para debater projetos de lei de interesse realmente público.

Estamos tão distantes de um bom debate que o passado fica perto. Tempos em que era proibido proibir e parecia que se podia falar qualquer coisa tão sem filtro quanto os cigarros. Quem se perde nesse devaneio nostálgico-político-sonífero costuma falar que bom mesmo é Chico Buarque (mas não lembra dos últimos 5 CDs dele nem dos romances), que novela não vale nada (apesar dos debates populares virem quase sempre de lá), que o Jornal Nacional é vendido (como se todo tele-rádio-impresso jornal não tivesse anunciantes) ou outro clichê que explica não debater também. Sempre será um interlocutor inadequado, despreparado. É mais fácil fugir assim. São os defensores do mito da "conversa de mesa de bar". Como se quem já sustenta o mito não converse em mesa de bar repetindo o mesmo papo semana após semana, para não enfrentar as dores do cotidiano.

Estas reflexões ranzinzas têm um objetivo, que talvez não seja apenas resmungar. Relembro Marcelo Tas, em momento mais sereno. Após as gravações, os bastidores do seu programa CQC apareceram no A Noite é uma criança, de Otávio Mesquita. Lá foi dito por Tas algo fundamental para que aceitemos debater mais vezes. O professor Tibúrcio dizia que a internet (no caso, o CQC 3.0, que é online) fazia os apresentadores do programa ouvirem mais. Ele já dissera antes por diversas vezes que o Twitter ensinava pessoas que se julgavam importantes por estar nos meios de comunicação a voltar a ouvir os outros. Infelizmente, é o primeiro passo.

Digo "infelizmente" porque retomaremos ter que identificar fundamentos de cada discussão, enquadrar, reorganizar racionalmente ideias. Nós, órfãos pós-modernos do Iluminismo, em tempos de ideias que mal duram uma semana, temos que conviver com os debates, como diria Bauman, "de guarda-roupa", baseados em ideias sentimentalmente apresentadas, nossos "cinco minutos de ódio" para o escândalo da semana, como faria Orwell em 1984. Mas filtrar isso é necessário. Se a Fundação aguentou séculos segundo Isaac Asimov, precisamos não ter pressa nesse esforço coletivo para um dia, quem sabe, o mundo parecer ter sentido mais uma vez, se já teve um dia.

Enquanto isso, quem deixa em seus blogs espaço para comentários precisa filtrar preconceituosos, ódios de todo tipo, que se julgam no direito de ofender dizendo ser isso opinião. Se não se sabe mais analisar fatos, examinar a realidade, toda ofensa parece ideia e toda violência se torna expressão. Todo afeto parece assédio e toda brincadeira se converte em bullying. É preciso voltar a pensar na objetividade do debate sobre ideias com pauta, não mais apenas como depoimento de quem fala. 

Os nossos tempos pós-modernos fazem proliferar a subjetividade ao ponto de não mais haver espaço para tentar ser objetivo. Todo relato se torna depoimento, todos querem ouvir sobre o outro, de preferência sobre sua intimidade. Pensar em "o que você acha sobre isso" tem importado menos do que "e você com isso?", pois se não há envolvimento pessoal não há como debater a pessoa. Se não se sabe lidar com a análise de ideias, resta examinar caráter alheio. Regredimos a reflexões análogas às da Inquisição. Mas já é um bom começo. Poderíamos regredir aos diálogos de Platão e ter que recomeçar tudo. 

(Desfaz-se agora a programação ranzinza. Sorria, você não está sendo filmado)


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