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quarta-feira, 9 de março de 2011

O discurso pelo discurso pelo discurso

Infelizmente, nós nos empolgamos com as ideias por si mesmas. Como historicamente, a retórica predomina em sociedades em que a capacidade de escrita é mais baixa, em que a tradição de mudanças populares é baixa, e ficamos entusiasmados com quem fala bem. Se O Discurso do Rei fosse um filme sobre político brasileiro, sobrariam candidatos a protagonista. 

Há alguns anos, Fernando Gabeira foi saudado como heroi porque gritou com Severino Cavalcante quando este era presidente da Câmara dos Deputados. Heloisa Helena sempre é lembrada como senadora e vereadora por suas falas. É difícil quem esqueça quando Lula disse que no Congresso eram 300 picaretas com anel de doutor. Em todos esses casos, há algo em comum, há algo em comum com a oradora do momento, a deputada Cidinha Campos: ficamos satisfeitos quando os ouvimos. Isso nos completa e fica por isso mesmo.

Atribuímos poderes mágicos à retórica, preferindo enaltecer os "corajosos" que dizem o que os demais calam. Acontece que os tempos de ditadura passaram e nossos discursos não precisam ser calados e ficar olhando orgulhosos para exemplos isolados. Agora, é possível ter passeatas contínuas, é possível seguir exemplos como do Oriente Médio, da Argentina nos anos 1990, mas nada é feito. 

Por isso, cuidado que bons discursos, como o filme bem mostra, podem ser obtidos com um cargo que garanta ser nobre todo discurso de boas intenções e com um bom fonoaudiólogo. Para ação, é preciso ter ideias em movimento maior do que o mover da laringe.


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