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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Obrigado por deixar fumar

O hábito de fumar vai se tornando algo juridicamente muito contraditório. Pensei nisso quando estive almoçando com amigos no último sábado. No restaurante onde estávamos, havia um aviso em todas as mesas de que, dentro de poucas semanas (não lembro a data), a área de fumantes não existiria mais por lá. Curiosamente, o mesmo restaurante vende fumo para charuto, isqueiros, narguilê, enfim, toda a parafernália típica do tabagismo. 

A contradição não é algo isolado àquele estabelecimento. A tributação sobre cigarros é pesadíssima, mas por todos os lados o Estado inibe o hábito de fumar, logo espera arrecadar menos? Ao mesmo tempo, aumentam a cada ano os debates sobre a legalização, não de todas as drogas, mas da maconha, que também se presume que seja por meio de liberação dos cigarros. Para fumar apenas em casa? 

Até que ponto o Estado pode se manter contraditório, em nome de dizer que eu tenho direito à saúde? É direito ou é dever, já que impõem que eu me cuide? Não fumo e odeio cigarros, mas cidadania não se confunde com paternidade estatal, para que o Estado use tão somente de argumentos morais e de saúde pública para que eu não fume. Afinal, se os cigarros são autorizados para venda, não deveria haver tantos cuidados para a compra. Não há mercado sem pensar simultaneamente em oferta e em procura.

É a condição patética de ver avisos nos próprios cigarros dizendo por todos os meios que você não deve comprá-los. A anti-propaganda impressa nas embalagens, por obrigação legal, parece com os avisos no computador: "Você tem certeza de que quer apagar esse arquivo?". Ou será que fumantes se preocuparão em ler cuidadosamente as embalagens, ligar para médicos para tirar dúvidas, conferir central telefônica do Ministério da Saúde? Querem apenas levar fumaça para o pulmão.

No aeroporto de Guarulhos, a piada aumenta. Existe um cercadinho com cara de anti-creche para adultos, que é a área de fumantes. Sala grande, com muitos sofás e TV igualmente grande, muitos cinzeiros, mas escuro, como se dissesse que é muito pouco recomendável ficar ali. No mundo que é aquele espaço, enorme e labiríntico em sua desordem de placas que levam a lugar algum, quem quiser fumar deve deixar seu portão de embarque e ficar naquela área fechada contando com a sorte para voltar a tempo de pegar seu voo.

João Pereira Coutinho (que sei não, sei não, mas acho que não é parente...) escreveu interessante artigo comparando a situação de fumantes a outro grupo rejeitado na sociedade: quem urina na rua. Em Nova York, a multa é a mesma, que também tem o mesmo valor para a mendicância. Assim, o colunista afirma que fumantes (enquanto não se pode matá-los, afirma ironicamente o articulista) são suportados em condições análogas a cães de rua, como farrapos humanos. 

Não sabemos o que fazer com o cigarro, não há políticas públicas claras, mas ainda se quer pular esse debate inconcluso e sem termos claros para discutir a legalização da maconha. 

1 comentários:

Rogério Brandão de Faria disse...

Verdade Sérgio, as contradições são visíveis. Essa história de "compra, mas não fuma" remete-me a questão do voto obrigatório, que teria o slogan "apareça, mas vote se quiser", visto haver a possibilidade de votos em branco e nulo. Seria uma espécie de visita ao mesários e a seção eleitoral obrigatória, e o voto? um plus....

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