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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

O que esperar da crise no Egito?

Talvez nada sob nossos olhos ocidentais. Este é um aspecto que exige cuidados. 

Não podemos julgar a crise no Egito segundo nossa história democrática e tendência antropocêntrica na política. A tradição daquela região é de teocracias islâmicas. Não há geração viva no Egito que saiba o que é democracia, com pluralidade partidária, eleições livres e todas aquelas instituições com que estamos acostumados.

Penso que Émile Durkheim ajude a entender o problema. O cientista social francês foi considerado conservador por muitos estudiosos, devido à sua prudência diante de rebeliões nas ruas. A "rua árabe", bem lembrada por William Waack ontem no Jornal da Globo, é de revoltas, não necessariamente de lutas por objetivos claros. Lembra muito mais os panelaços argentinos, que queriam a queda do presidente e nada mais. Durkheim temia que, sem objetivos alcançados, nada seja conquistado além da continuidade da rebelição, o que ele denominava na etapa final como anomia, ou ausência de normas coletivas de convivência que sejam claras a todos. É um risco, no qual desabaram Haiti, Serra Leoa, Timor Leste entre outras nações.

Do Blog do Tas
Os meios são mais interessantes do que os fins nesse caso. Lembremos que egípcios dentro e fora do país usaram Facebook para organizar manifestações, mas a surpresa não para por aí. Quando grandes grupos iam a mesquitas, já saíam de lá direto aos protestos. Grande parte da manifestação, mesmo que não seja de uma direita islâmica organizada, é islâmica. Isso não significa ser extremista, mas que a Nação Árabe continua forte. Lembremos que as manifestações estão impulsionadas em vários países do Oriente Médio simultaneamente. Quando a internet e a Al-Jazeera mostram que algo está acontecendo, aqueles que partilham sua identidade étnica têm grande motivação. 

A Nação Árabe é ideia tão forte que as Forças Armadas egípcias se recusaram a reprimir as manifestações, considerando-as legítimas. Não é questão de globalização, tem limites territoriais claros e é algo que precisa de séculos para ser bem observado.

Sem internet, as pessoas marcam na própria manifestação e nas mesquitas a próxima reunião nas ruas. Sem meios de transporte, o hábito religioso de longas caminhadas supre o aparente obstáculo. O jejum, prática anual de todo muçulmano, faz com que as restrições no acesso à comida não sejam tão severas. Sobram, portanto, razões para que os manifestantes não cansem tão cedo. 

Diante de manifestações populares, o presidente cedeu, não disputará novas eleições. Apesar disso, apenas o fez após ligação da presidência dos EUA pedindo que fossem tomadas providências. As acusações de submissão aos EUA, vindas das ruas, ficam assim ainda mais fortes. Ser "aliado" dos EUA não é algo simples.

Aguardemos os próximos passos, sem olhar ocidental que só atrapalha.

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