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segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Escolas vão ensinar sobre dinheiro e o que mais?

O recentíssimo Decreto n. 7397, de 23 de dezembro último, impõe às escolas educação financeira para crianças e adolescentes. Como objetivo, consta no Decreto: “promover a educação financeira e previdenciária e contribuir para o fortalecimento da cidadania, a eficiência e solidez do sistema financeiro nacional e a tomada de decisões conscientes por parte dos consumidores”.

As escolas não sabem mais o que fazer no Brasil. Segundo todos os indicadores internacionais, mal ensinam a contar, a ler e a escrever. Mesmo assim, elas inflam os currículos com cada vez mais conteúdo, sem saber o que fazer com ele. Estudantes que são incapazes de interpretar notícias em jornais precisam se virar a cada ano com mais temas para abordar. 

O grande problema é que todas as boas intenções parecem merecer fazer parte do currículo. É assim com o precário e eterno debate sobre educação religiosa nas escolas. Aprende-se mal como lidar com determinada religião, sem estímulo à tolerância religiosa nem noções de Teologia. Quando se fala nisso alguém logo rebate que então deveria constar no programa Direitos Humanos, ou voltar Educação Moral e Cívica ou o que o valha.

Ensinar envolve planejamento a longo prazo. Problemas imediatos não devem constar em escolas com a estabilidade que se presume a conteúdos currículares, mas aquilo que se espera como base para a partir do básico compreender a sociedade. A má compreensão disso fez com que para "reparar uma dívida histórica de 500 anos", como tantos repetem, fosse incluída História da África e dos povos africanos nas escolas brasileiras. O problema súbito que surgiu seria cômico se não fosse tão brasileiro: não havia professores aptos para ensinar isso nas escolas. Em vez de revisar o programa, que desconsiderava a diversidade de povos que formavam o Brasil, correram a proliferar cursos rápidos de capacitação ou especialização em História da África. Foi uma decisão ideológica movida por bom lobby de movimentos sociais, mas sem respeitar o papel da escola. 

É a educação bancária tão condenada por Paulo Freyre. Segundo Freyre, consistia em se importar tão somente em depositar conteúdos, se tiver valor que seja depositado, na cabeça dos estudantes. Serão, assim, aptos para provas de qualificação, como ENEM e vestibulares, bem como concursos de nível médio em geral. Mas continuarão incapazes de, repito, interpretar uma notícia de jornal. Qualquer tema que for levantado daria boa disciplina escolar e grande parte das ideias recentes são excelentes: educação sexual; educação para o trânsito, a própria História da África, Direitos Humanos etc. Mas o que se esquece é que quanto mais temas dividirem seu dia menos atenção será destinada ao básico.

É fundamental para entender o mundo que se possa articular ideias. Física I, II, III... precisam ter conexão. Com a quantidade de informações que compõem o programa, o ensino fica meramente informativo, com cada vez mais apostilas treinando questões de vestibular para o estudante saber responder, não saber fazer perguntas a partir das suas dúvidas. O número de horas-aulas e a quantidade de esforço para ler e escrever, para saber achar o próprio país no mapa, para dominar as quatro operações ficam cada vez mais limitados. 

Não há nada inovador nos programas de escolas dos países que ficam nos primeiros lugares no PISA, onde o Brasil sempre é lanterninha. Simplesmente investem na qualificação docente, no tempo do estudante em sala de aula e em aprofundar os programas de sala. Com programas tão mais simples nossos pais, nossos avós lembram o que aprenderam, décadas depois. Enquanto isso, Renato Russo e eu odiamos química. Não sei a razão dele, mas a velocidade do conteúdo me incomodava.

Porém, logo aparecerá como solução mágica para o problema uma disciplina curricular de como aprender a estudar as outras disciplinas curriculares ou alguma outra ideia nova. Reinventa-se a roda todo ano mas ela não se move.

1 comentários:

analima disse...

Excelente. Mais uma vez, situação semelhante à vivida, neste sector, em Portugal.

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