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domingo, 2 de janeiro de 2011

E temos uma Presidenta.

Acompanhei com atenção, ontem, os dois discursos da Presidenta Dilma. Gostei muito das diferenças marcantes em relação a Lula. Não por antipatia, já que o estilo fanfarrão me agradava. Mas porque desde a posse ela mostrou que não tem nada de fantoche.

A emoção contida em vez dos rios de lágrimas não demarcaram suficientemente as diferenças. Não havia, como não houve em falas passadas, espaço para seu próprio passado. Os gestos de gratidão ao ex-presidente vinham do texto escrito. O respeito ao protocolo e ao texto do discurso, do qual não desgarrava nem mesmo quando parava para enxugar lágrimas no rosto são algo bem distinto de quem falou de improviso por oito anos. 

Mas, não fiquemos apenas nas aparências. Examinemos o discurso (quem quiser ler, clique aqui). Ficarei com o discurso no Congresso.

O discurso no Congresso foi demarcado por distinções. Somado ao discurso ao povo brasileiro, foram duas referências a Guimarães Rosa ("um poeta de minha terra", dizia a Presidenta) e uma a Indira Gandhi. Muito bom para quem andava cansado das metáforas do ex. Denotam o que o discurso acentuou a cada tema: um pensamento analítico, articulando dados técnicos a todo instante, de alguém que conhece a linguagem técnica por ter sua carreira não na militância mas como burocrata de 1o escalão. Weber estaria orgulhoso do Estado brasileiro, pelo menos neste aspecto.

Foi um discurso programático. Será possível guardá-lo para cobrar de Dilma sua realização por quatro anos. Por isso, traçou o papel do professor na educação (como autoridade do processo educacional), do SUS para a saúde, que o Pré-Sal não será mais tratado como solução milagrosa mas como resultado de políticas sociais, tecnológicas e ambientais e poupança para as próximas gerações. Se o controle sobre a imprensa pautou grande parte do governo Lula, por mais de uma vez Dilma se referiu à importância da imprensa livre. 

Em vez do "operário que ia dar aula a doutor", como Lula adorava repetir, esnobando títulos ao seu redor, Dilma, como alguém que recebeu toda capacitação para os cargos que ocupara, reforça o papel da formação contínua dos servidores públicos, dos professores, dos médicos. A Folha publicou há dois dias que todos os ministros terão metas de gestão a cumprir, podendo ser destituídos dos cargos caso não as cumpram. Seria uma forma de equilibrar as indicações partidárias e critérios de eficiência.

As metas apresentadas não tinham formato de promessas. Não é mais campanha eleitoral. O ex esteve em campanha por oito anos, até dias antes de deixar a Presidência. Eram apresentadas como diretrizes ou, como gostam os gestores, como "missão" da empresa. O fantoche de Lula que aparecia nas campanhas mostrou ter vida própria. Toda sorte à Presidenta Pinóquia, ou melhor, Dilma.

1 comentários:

Rogério Brandão de Faria disse...

Boa análise! O discurso foi muito interessante. Dilma marcou seu espaço. Mostrou a que veio. De início, agradou-me.

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