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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Declarados, assumidos e outros réus confessos

 (Este texto foi escrito no fim de semana e não tem qualquer ligação com seja qual for o resultado da eliminação de algum dos participantes do programa. Nem sei quem foi)


Há uma nova fronteira na inclusão social, com novas modalidades de preconceito e hipocrisia. O desafio para a diversidade sexual ficou franco com um reality show que tem em seu elenco uma transexual. De repente, parece haver algo de errado se fizer silêncio sobre sua cirurgia de mudança de sexo. 

Em outros tempos, era cobrado de judeus que se revelassem como tais, diante do Holocausto, diante da conversão forçada de cristãos novos, entre outras situações históricas em que foram perseguidos. Quando historicamente se debateu a abolição da escravatura no Brasil, nos EUA, sempre se quis saber dos ancestrais dos abolicionistas, se eram filhos ou netos de escravos. Até hoje, é comum encontrar quem se defina algo como um vinte e cinco avos cheyenne em reservas indígenas americanas, pelo peso da árvore genealógica para poder fazer parte da comunidade. 

Não é nada difícil encontrar entre pessoas com deficiência quem precise, para desempenhar a militância pelo grupo em desvantagem, descrever seu acidente ou qual doença no nascimento resultou na limitação física, intelectual ou sensorial. Quem não tem deficiência, costuma relatar parentes ou amigos que tenham. Repetem-se os mesmos traços, preocupantes e injustos.

Os traços não costumam ser sutis. Refiro-me a uma suposta obrigação a abrir mão da própria intimidade quando o assunto for a relação com grupos em desvantagem na sociedade. Vejam que um católico, branco, heterossexual não precisa entrar em detalhes sobre qualquer uma dessas caracteristicas. Contudo, se for umbandista é provável que alguém pergunte por que tem aquela crença, quem são seus pais entre outras questões que normalmente não apareceriam.

Mas, voltemos ao programa de TV. Logo no primeiro dia uma participante volta-se ao seu grupo e pergunta se alguém ali é gay. Em outro dia, dois personagens gays exigem da participante transexual que fale ser transexual aos demais. Não têm ocorrido casos em que heterossexuais relatem constantemente seu dia-a-dia sexual nem sejam cobrados sobre isso. Brancos silenciam sobre o que querem. Homens que paqueram mulheres e mulheres que paqueram homens apenas falam sobre o que quiserem. Um dos personagens gays do programa disse que percebera haver ali uma transexual por tudo que ela deixava de falar, pelas omissões, algo que seria tipicamente do universo LGBTT. Curiosamente, fora dessa sigla essas omissões poderiam ter o nome de intimidade.

Esse é o universo da hipócrita denominação de homossexual assumido ou declarado. Os termos parecem no cotidiano trazer consigo alguma confissão, como se fosse culpado de algo e precisasse mencionar para todos. Se parecer exagerado eu me referir aos termos nesse tom, pense que não existem heterossexuais declarados ou assumidos. Na imprensa, faz algum sentido apesar da injustiça flagrante. Afinal, são casos em que não haverá risco de processo contra o jornal porque teria difamado alguém. O cuidado não costuma ser com a vida privada das pessoas, mas com difamação.

Assim como a cabeleira do Zezé no carnaval, o caminho mais simples do que prestar contas a todos ainda costuma ter apenas duas opções, ou ficar como transviado isolado na felicidade do gueto ou cortar o cabelo dele, metáfora para manter silêncio sobre a própria condição para não causar desconforto, já que sempre será preciso que a apresentação comece por deixar claro o que em si causa repulsa. Afinal, aos declarados ou assumidos estará no dia a dia a obrigação social de se apresentar a partir de seu estigma aos outros, não a partir de seu nome, profissão, como os demais membros úteis da sociedade poderiam fazer.

Fica parecendo que o mundo muda mais rápido do que de fato supera suas diferenças. Afinal, hoje um jornal saudava a existência de um núcleo gay na próxima novela das 9. Em outro momento, foi saudada a existência de núcleos negros, ciganos, árabes... sempre se tratando de mostrar os personagens a partir dessa ou daquela característica e toda sua vida dentro do enredo sendo limitada por aquele elemento. Isso é o estigma, carregar uma marca como algo que dá fim a sua personalidade aos olhos dos demais, que restringe sua convivência.

Quando pudermos olhar ao redor sem primeiro ver negros, deficientes, gays mas as pessoas pelo nome ,poderemos dizer que a sociedade é inclusiva. Até lá, continuaremos esperando histórias de superação, descrições de sofrimentos, sobre assuntos que quando não pertencemos a grupos em desvantagens não somos obrigados pelos outros a falar.


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