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sábado, 13 de novembro de 2010

Você já viu bolas de neve rolando?

Lamento desfazer mitos de desenhos animados, mas elas não rolam. O atrito é insuficiente, se desfazem rapidamente quando jogadas no chão, nada permite que elas fiquem crescendo. Mesmo assim, é uma imagem muito útil para todos dizer que algo "é como uma bola de neve". Seria, na verdade, algo que geraria grandes expectativas de avalanche mas que se desfaz rapidamente quando no chão.

Há imagens como essa, de tão grande impacto mas inusitadas quando comparadas com a realização, todo tempo. Mantendo o contexto de tirar exemplos do seu sentido normal e explorar outras possibilidades, lembro de uma história obscura do Batman, de uns dez anos atrás. Ocorreu nas histórias em quadrinhos do homem-morcego uma série chamada no Brasil "Terra de Ninguém". Talvez eu ainda tenha toda a saga. Dentro dela, surgiu um personagem misterioso conhecido como "O rei da cidade". Seria alguém que disputaria espaço com o protagonista, pois quando a cidade fora esfacelada por um terremoto, sem serviços públicos e isolada do país, ele resolveu tudo. À medida que Bruce Wayne andava mascarado pelas ruas, encontrava filtros artesanais que permitiam a todos beber água potável, armazenada por grandes funis das chuvas frequentes; moinhos que geravam energia elétrica; reciclagem de roupas e de plástico permitindo bens de uso diário por todos os lados; hortas orgânicas. Numa cidade esfacelada, aquelas ruas eram plenamente sustentáveis. Quando o herói se encontrou com "o rei", era um ex-presidiário que, vendo sua gangue morta pelo terremoto, usou tudo que tinha aprendido nos cursos no presídio para sobreviver.

Nunca mais vi aquela figura nas HQs, mas como ele aparecem todo tempo. Até mesmo ideias pequenas, dependendo de como sejam interpretadas, podem deixar de ser inexpressivas e ganhar novos significados, mudando cotidianos. Cabe um breve depoimento? Dá licença. Obrigado. Um dia, eu tive 17 anos de idade. Talvez às vezes pareça difícil imaginar, mas não é improvável, aconteceu mesmo. E, recém aprovado no vestibular, a escola chamou um estudante de cada curso para falar sobre a própria aprovação. Juro que não soube o que dizer, mas fui, porque poderia ser útil para alguém. A exposição foi precária, falei aleatoriamente sobre o cursinho que fiz, as disciplinas da escola, as expectativas do curso universitário, e saí literalmente correndo após a exposição, envergonhado por ter sido tão ruim. Uma vez ou outra nesses anos lembrei daquele desastre aparente. Faz dois meses que um colega de trabalho disse "você estudou no colégio ...?", "sim", "deu uma palestra, não foi?". E não é que ele me disse que de me ver animado ali decidiu fazer Direito e está até hoje nessa vida? Ainda bem que não se arrependeu, mas não haveria como imaginar que tão jovem falando de improviso um texto ruim, já sabia que era ruim na época, teria tamanho impacto.


O resultado de hábitos simples é equivalente. Minutos atrás, foi lembrado no seminário @DigiComBrasil, organizado pelo amigo @Toni_71, por amigos da agência @Chama_Pubblico, o case do SOS Mata Atlântica sobre o impacto de fazer xixi no banho. Veja o vídeo:







O impacto é notável. É possível até esquecer do mal cheiro que fica impregnado ao redor do ralo... mas o impacto viral de informações hoje é incalculável. A todo momento é possível que algo solto pelo ar adquira novos significados, aumente ou atenue sua intensidade, em brincadeira mundial de telefone sem fio em que tudo vale a pena e não há alma pequena. Todos podem transmitir algo tido como grande. Por isso, memes são fundamentais. É preciso perceber de algum modo o potencial de transmissão de ideias, como algumas entre elas tendem a ser alimentadas pelo tempo, como passam a fazer novo sentido e podem controlar nossa atenção começando pequenas.

De verdade, bolas de neve não viram avalanche. Mas dependendo da força de certas ideias no nosso cotidiano, produzimos avalanches com ou sem flocos de gelo.


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