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sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Um herói contra a banalização do mal

Já assistiu Tropa de Elite, 1 e 2? Espero que sim, para me dizer o que pensou. É preciso passar às vezes semanas para superar a catarse dupla dos filmes. É uma grande saga sobre um grande herói, no sentido clássico. A saga do herói, tão lembrada na Literatura, lida com a descoberta do próprio potencial por meio de um mestre que ensine o caminho, a superação das dificuldades no destino e alcançar a própria missão. E missão dada é missão cumprida.

Roberto Nascimento não teve um grande mestre nem conhecia seu caminho até meados do segundo filme. Como ele bem lembra, sua carreira na PM foi toda voltada a aprender e praticar como torturar e matar, nada mais. Contudo, não é um homem voltado à violência. A banalização do mal não o atingiu. Hannah Arendt assim se refere ao modo como muitos lidaram com o Holocausto como algo inserido no cotidiano, judeus sendo caçados fazendo parte da rotina de cidades da Alemanha na primeira metade do século XX, com grande tranquilidade de países vizinhos. Nascimento viu isso e sofreu.

Antidepressivos e a culpa de perder a família no primeiro filme, a autocrítica após ver a corrupção em todas as escalas do serviço público que idolatrava, foram o percurso para a sua autocrítica e redenção. A saga do herói hoje se faz sem quem o ensine seu caminho, é preciso tropeçar para andar. João Cabral de Mello Neto já dizia bem que toda faca é uma faca só lâmina, porque penetra na carne de alguém em uma ponta e na alma do outro que atinge. É mais que faca na caveira. Superar a própria violência fez de Nascimento um herói brasileiro, não um anti-herói. A truculência, o uso do Bope para fins pessoais em busca de motivações morais em construção, fazem dele o típico herói brasileiro de hoje, alguém com autocrítica, que confessa usar a violência porque é tudo que sabe, que confunde público e privado quase tanto quanto aqueles que o enojam, mas combate as motivações das próprias culpas. Lembre que, no começo do primeiro filme, o orgulho era de fazer parte de uma unidade inteligente. Lembre também que, no começo do segundo filme, ele "desce pra cima" no comando da inteligência da Secretaria de Segurança do Rio, mas ainda afirma que tudo que sabe fazer é matar e torturar.




Convivemos com o heroísmo tão ambíguo quanto somos todos os humanos. Somos capazes de atos bonitos e atos enojantes, mas, como lembraria Aristóteles, eles não nos definem, não dão fim a quem somos. Apenas às nossas ações. Sempre é possível fazer algo distinto e com maior sentido, transcendendo quem parecemos ser e atingindo quem podemos nos tornar.

É assim no caso de Nascimento. Chamou minha atenção o modo republicano como isso ocorreu, literalmente republicano. Pois à medida que ele passa a procurar as instituições do Estado, ele enfrenta o sistema. E vão as contradições em CPI da Assembleia do Rio, os limites da Comissão de Ética no Congresso, à medida que ele amadurece e seu filho se recupera. Ambos superando a dor, mas quando ele deixa de usar o Estado para fins meramente pessoais e abre mão de si. Não se sabe que fim ele terá quando encerra o segundo filme, nem faz diferença. Terminou bem se alcançou plenamente seu objetivo.

Mas, será que alcançou? "O sistema", que a princípio parece abranger tudo sem fazer sentido, sem ter limites, mostra, como na Microfísica de qualquer poder em Foucault, que onde há dominação existe também resposta, porque para o poder se fazer presente é preciso o contato para oprimir alguém. No contato, é possível colidir, revidar, resistir. Onde há resistência, há possibilidade de um novo poder. As milícias mostraram para Nascimento o fracasso de seu modelo de hegemonia. Ambos lidavam com a "pacificação" de comunidades, sem pensar, como diria Marcelo Yuka, em qual é a paz que se quer seguir.

Lembre: Nascimento foi promovido no auge de sua violência, chegou a Tenente-Coronel, alcançou comando de grande parte da segurança pública do Rio após seus discípulos causarem um massacre como foram treinados para fazer, conseguiu provas contra milícias com escuta clandestina, enfim, é herói que sofre, poderia ser qualquer um, desde que se conduzindo até os próprios limites e, após reconhecê-los, indo além.

No fim, o homem que namora quem foi sua esposa, que ensina valores ao seu filho, torna-se único aliado não por ser quem é, mas pelo que faz, quando Nascimento deixa de tratá-lo pelo nome mas o reconhece como deputado. As instituições que funcionam fazem a diferença na cabeça de quem enfrenta o "sistema", é preciso superar a própria violência para ter o Estado como único com violência legítima, mas é preciso mais.

Para evitar a banalização do mal, é preciso conhecer a dor que ele causa. Quando é conhecida por Nascimento ele de fato faz jus ao nome e reconhece que ódio gerava apenas mais dor. O segundo filme, ou segunda parte de um longo filme, termina com despertar de pai e filho. Também vai pegar você.


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