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quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Sobre "nós", "eles" e Silvio Santos

Faz algumas semanas, a classe média nordestina, que acessa regularmente as redes sociais, se sentiu ferida porque uma estagiária em São Paulo disse que os afogaria. Referia-se aos nordestinos imigrantes que sustentam a economia paulistana, mas a classe média nordestina, incapaz de se solidarizar com os mais pobres que se vão em busca de melhores condições de vida, tomou as dores como se ela falasse deles. Contudo, sobraram casos que não souberam se defender.


Vi, vi muitos, nascidos e crescidos desse lado quente do país que responderam de um modo curioso. "'Esses' paulistas são assim...'". Fui a uma palestra onde o conferencista falava "Paulistas fazem campanha contra nordestinos". Faltava o fundamento do que é preconceito, que ele não é algo necessariamente unilateral. Tudo é conjugação verbal: é dividir o mundo entre "eles" e "nós".

Essas generalizações malditas são úteis quando se tem preguiça para pensar. "Os negros têm preconceitos contra si mesmos!", gritam racistas que não se assumem como tais, sem reconhecer que alguém que tenha sofrido discriminação toda a vida tem todo o direito de desenvolver baixa auto-estima ou ficar em alerta com comentários ofensivos no cotidiano. "Esses sem-terra são um perigo!" como se CONTAG, MLST, MST, Grito da Terra, Pastoral da Terra fossem todos um só movimento, que ao não ser conhecido é idealizado como o grande mal da volta das praias pela classe média, no ato em que fecha rodovias para atrapalhar o lazer. 

Dividir o mundo entre "eles" e "nós", tentando "nos" santificar ou vitimizar em troca de que "eles" reproduzam todos os males é algo prático. Facilita para não precisar enfrentar problema algum da sociedade. São questões normalmente complexas, grandes, que envolvem esforços coletivos. É mais simples ter um inimigo mítico e odiar de longe.

E temos Silvio Santos. Há semanas, ocorreu o Teleton 2010. Espero que você tenha contribuído, ainda é possível fazer doações. Silvio surpreendeu olhando para cada criança com deficiência que estava no estúdio e falando olhos nos olhos com cada uma. Algumas não falavam e ele levantava cuidadoso o rosto de uma e dizia "fala com os olhos, meu bem"; com outra, que gritava empolgada, ele gritava "Fala!" ao que a mãe tímida balbuciava atrás  "ele não fala". E ele assim abordava, entre desajeitado e desinformado, uma por uma das crianças. Seria fácil tratá-las como "elas", vítimas e indefesas, caso optasse por falar apenas com as mães (a ausência de pais também foi algo que chamou a atenção no momento), mas preferiu evitar a mitificação fácil de manter a distância. 

É um exemplo de alteridade, de ver o outro a partir de sua própria perspectiva, aceitar que há formas diversas de viver e que só dialogando se vai encarar tudo isso bem. Falta diálogo quando sobram "eles" malditos no dia-a-dia, sobra quando "nós" não é usado para se opor a alguém. 

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