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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O saldo das eleições entra no cheque especial

Para avaliar o saldo das eleições, ele é facilmente negativo. A ausência de grandes surpresas nos resultados pode até ser vista como estabilidade das instituições, mas é preciso examinar melhor para enfrentar com prudência os próximos anos. Nunca se teve tão pouco foco nas instituições, mostrando nossa imaturidade democrática.

O Poder Judiciário se expôs à democracia por meio da TV Justiça mas, "nunca antes na história desse país" esteve tão escancarado em seus pecados. Como bem analisou a revista Piauí há poucos meses, em reportagem em duas partes, o Supremo Tribunal Federal mostrou que não é uma Corte, mas um conjunto de egos que pouco se importa com o país onde se encontra. Indo contra todos os fundamentos da Magistratura, decidiram não decidir, entre troca de piadas e omissões.

O Poder Executivo se envolveu com a disputa presidencial de um modo igualmente inédito. O Presidente se impôs na campanha, abusando de seus 80 e poucos por cento de popularidade segundo pesquisas. Riu de todas as multas do Tribunal Superior Eleitoral, mostrando mais uma vez a fraqueza do Judiciário.

Por falar ainda em fraquezas do Judiciário, está decidido no país que o título de eleitor não tem mais utilidade alguma. Após meses em que brasileiros pagaram taxas por seus títulos, amargaram filas sem fim, foi definido que seu esforço foi em vão. Basta documento oficial com foto para votar. Para concursos, habilitação, é preciso ter título, mas não para votar.

Entre tantas questões sérias que um país que pode ser uma das maiores potências econômicas mundiais nos próximos dez anos (tenho nada com isso, é afirmação do Banco Mundial), os candidatos se desfiguraram, abriram mão de suas identidades em nome de discursos falsamente moralistas e pretensamente religiosos sobre aborto, mentira e quem teria "duas caras" ou "mil caras" nos debates. Encerramos o segundo turno com uma bola de papel na cabeça de um candidato sendo o principal assunto para discussão. 

Encerramos o primeiro turno com um palhaço sendo principal assunto, sem lembrar dos mais de um milhão de outros que nele votaram. Se for analfabeto, fica um mensaleiro; entram três de carona. De todo modo, o baixo clero do Congresso receberá mais um que vota a serviço de quem manda no partido. Encerramos o segundo turno com o maior índice de abstenções da história eleitoral. Não acredito que se deva apenas ao feriado de Finados fazendo muitos viajarem. Tudo isso cansa.

Militantes trocaram ofensas contra candidatos, bateram em jornalistas, dispersaram difamações dos dois lados. Nem vale a pena lembrar nas eleições para governador o que de equivalente ocorreu. A militância que um dia foi partidária, ligada na esquerda a movimentos sociais, na crise ideológica das legendas nas últimas decadas converteu-se em força personalista. Ama o candidato, ignora a coletividade que o cerca e odeia todos que falem mal dele. Fundamentalismo é pouco.

Porém, há êxitos. Biograficamente, ambos os candidatos tinham currículos de gestores competentes e, para o bem ou para o mal, o Brasil elegeu a primeira presidenta de sua história. Para quem afirmava que isso seria menor, já que seria à sombra de Lula, ele sempre foi cavalheiro em dizer que se afastaria da presidência após a eleição de Dilma, por entender que deva ser este o papel que caberia aos ex-presidentes e ela correu em dizer que não o cogitava para seu Ministério. A Revista Veja já aponta reedição das caravanas da cidadania de 1993 como objetivo de Lula, preparando terreno para palestras internacionais no combate à fome. Restará a Dilma ser gestora pública e líder do êxito sulamericano em eleger com frequência crescente representantes do sexo feminino. Em nenhum momento significativo da imensa baixaria que foram os dois turnos das eleições, o sexo da candidata pareceu determinante. 

Seu discurso da vitória destoou do caráter messiânico do discurso de Lula (esperança vencendo o medo) e, como em sua carreira sempre era claro, enfatizou a meritocracia no cotidiano da sua gestão. Se seus militantes batiam em jornalistas, como reportagens em vídeo mostraram por diversas vezes, pelo menos um dos agredidos, Danilo Gentili, agradeceu diversas vezes em público por ela intervir para mandar parar. Se a liberdade de expressão gritada falará mais alto do que o silêncio da ditadura, expressão feliz em seu discurso, ainda é cedo para afirmar. Porém, como continuidade partidária, será descontinuidade interessante se mantiver esse objetivo. 

Há oito anos pudemos ver algo raro na história política brasileira: a passagem de faixa de um presidente eleito para outro. Agora, poderemos ver esse gesto outra vez. É estabilidade simbólica que pode, por repetição, trazer a estabilidade institucional que talvez um dia conquistemos. Como bem diz na Veja dessa semana o ex-presidente Fenando Henrique Cardoso, quem sabe um dia teremos um presidente contando com ex-presidentes como consultores sem considerar afiliações partidárias, como ocorre nos EUA. Quem sabe. 

A estrada é longa e o caminho é incerto, mas é feito aos tropeços por quem hoje grita e xinga mas ainda pode aprender a falar.

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