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terça-feira, 2 de novembro de 2010

Novas trapalhadas da militância eletrônica

Fazer política pela internet tem sido um exercício caótico e inócuo em grande parte das situações. Algumas medidas dessa semana que mal chegou à metade ressaltam que ainda não sabemos o que fazer com isso.

Twitter permite troca de ideias rápidas. Isso faz dele um exercício de brainstorm coletivo que confunde ideias fortes com gritos eletrônicos de fôlego curto. Foi assim que nas últimas 24 horas muitos amigos ficaram desorientados sem saber como reclamar de garotos que decidiram falar mal de nordestinos tuitando. Poderiam apenas bloqueá-los, não seguí-los, mas deram força à mensagem dos despreocupados que brincavam com a fragilidade alheia: machucavam por diversão e mais e mais. Como brincavam com a fragilidade alheia? À medida que alguém se machucava rápido com tão poucas palavras, retuitava o que incomodava acrescido de um comentário ou respondia, divulgando a mensagem original e o nome do agressor, que normalmente quer apenas repercutir uma tolice para adquirir novos seguidores. Deve ter funcionado.

Segundo reportagem interessante da Piauí sobre márquetingue político eletrônico, os marqueteiros tinham rede de tuiteiros e gente em diversas redes sociais que ficavam repetindo e repetindo mensagens ora difamatóricas contra adversários políticos ora de exaltação ao próprio candidato. Assim, pipocaram boatos, ofensas mútuas entre militantes, sabotando um espaço amplo em seu potencial para o debate político. Obama, que fomentou tão bem isso em sua campanha presidencial, deve estar arrependido do monstro que alimentou para a publicidade.

Mas sempre há mais problemas. Recebi há cinco minutos uma mensagem supostamente urgente por email, por twitter e por não sei mais onde para que  eu corra para assinar um abaixo-assinado on-line contra a execução amanhã de Sakineh Ashtiani. Lamento informar a todos que já rubricaram a petição eletrônica, mas os executores devem considerar a internet coisa do demônio. Duvido que ao receberem um email pensem melhor no que vão fazer. Caso tenham email, basta um bom filtro na caixa de entrada e não aparecerá a mensagem entre os não-lidos. Vai direto à lixeira.

Há muito que podemos fazer mas a carência de ideologias e projetos políticos coletivos faz com que desorientados procuremos alimentar qualquer ideia que apareça diante de nós. A manipulação das redes torna-se fácil se formos tão suscetíveis a comandos rápidos de quem saiba o que faz.

Não podemos confundir a ação política pela internet com a preguiça de se manifestar no 'mundo real'. Sem anonimato, unindo forças continuamente, é possível alcançar resultados. No meu livro que terá 2a edição publicada nas próximas semanas (não resisto ao merchandaisingue) lembro que os movimentos anticapitalistas como a Marcha de Seattle do fim do século XXI foram organizadas pela internet. Grandes manifestações na França pelo acesso de imigrantes a serviços públicos, ações ambientalistas em todo o mundo, não são apenas pontuais as atividades produtivas. Porém, demandam esforço.

Quem quiser gritar pela internet, precisa lembrar que alguém precisa entender no grito mais do que um bocejo alto de alguém entediado em frente ao computador.

1 comentários:

analima disse...

Interessante e acertada reflexão.

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