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sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Existe função para a Academia Brasileira de Letras

Estamos todos acostumados a ver a Ordem dos Advogados do Brasil se pronunciar sobre quase tudo. Faz sentido. Afinal, está no Estatuto da Advocacia que a advocacia seja função essencial para a justiça. Intrigante era para que servia a Academia Brasileira de Letras. Desde que Machado de Assis reuniu vaidosos, mantinha-se um mistério.

Sabe-se que ela edita um dicionário, mas não conheço quem tenha lido. Ela mal apareceu para comentar a reforma ortográfica. Fala-se de um mítico chá que eles beberiam. Há ainda o mistério da presença de não escritores entre seus membros, o que faria dela uma "academia de notáveis", como críticos às vezes falam. Mas a situação mudou nessa semana.

A ABL se pronunciou oficialmente sobre um abuso do Ministério da Educação! É praticamente uma ONG, portanto. O Ministério da Educação por esses dias vetou um livro de Monteiro Lobato de ser leitura para crianças, por acusações de racismo. Como se não bastasse termos apenas um autor infanto-juvenil nacional de livros (o que significa para alguém de 15 anos ser obrigado a ler Machado, Graciliano? Como começar o hábito da leitura com mais reflexão do que diversão?) ainda querem proibir que ele seja lido.

Pois disse a Academia, em fragmento da sua nota: 

"(...) cabe aos professores orientar os alunos no desenvolvimento de uma leitura crítica. Um bom leitor sabe que Tia Nastácia encarna a divindade criadora dentro do Sítio do Pica-pau Amarelo. Se há quem se refira a ela como ex-escrava e negra, é porque essa era a cor dela e essa era a realidade dos afro-descendentes no Brasil dessa época. Não é um insulto, é a triste constatação de uma vergonhosa realidade histórica."

Portanto, você pode ler como história de fantasia, como reflexo de uma época, como você quiser, desde que você leia. E o Ministério ainda acha melhor impedir o senso crítico de alguém. O paternalismo do nosso Estado não tem limites. Querem tomar conta de nós antes que possamos amadurecer. Não basta o Ficha Limpa (têm que tirar a candidatura de quem não querem que se corra o risco de que elejamos? Tiririca tem Ficha Limpa!), ainda há o cuidado com o que lemos. Responsabilidade bem examinada pela ABL: cabe ao professor orientar durante a leitura, não ao Estado dizer que há livros proibidos.

Espero ver a Academia Brasileira de Letras se manifestando mais vezes

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