Translate

sábado, 2 de outubro de 2010

Quem venceu a campanha de 2010?

Não me refiro às urnas, resultado numérico e simplório que virá amanhã. A política não se resume a isso, a não ser àqueles que apenas debatem nomes de candidatos em vez de partidos, ideias e sonhos. Penso na construção de lideranças a médio e longo prazo e no êxito quanto aos objetivos de cada campanha político-eleitoral específica. Vejamos nas eleições presidenciais.

Pessoalmente, vejo em Plínio de Arruda Sampaio um grande vencedor das eleições. Enquanto os demais candidatos autoproclamados de esquerda, cujos nomes ninguém fora dos partidos lembrará nas próximas semanas, mantinham a eterna postura de indignação que se confunde com recalque, timidez ranzinza em que só debatem com quem concorda com eles, Plínio exigiu participar de debates nacionais. Procurador aposentado com 80 anos de idade, nome histórico da fundação do Partido dos Trabalhadores (quando o nome completo importava mais que a sigla), Plínio debatia pelo twitter com qualquer garoto que tentasse desafiá-lo. Manteve postura humilde pedindo votos aos candidatos do Psol, falava em nome de um partido que já nasceu dividido com a dignidade de uma legenda harmônica e soube se despedir no debate dirigindo-se ao futuro. Ao futuro, com 80 anos de idade, de modo convincente e para empolgar jovens de todas as idades. Como bem disse o blog Na prática a teoria é outra, um exemplo raro de quem encerra com "Viva o Brasil!" sem parecer um idiota na hora que faz isso. Ficou bonito, despedida de cabeça erguida e sem atitude de candidato nanico. Se eu envelhecer mais, quero envelhecer assim.


José Serra venceu. Com ou sem segundo turno. Sua biografia foi respeitada por todo o horário eleitoral, nenhum dossiê petista conseguiu arrancar sujeiras em sua carreira política. Conseguiu encerrar o debate da TV Globo com discurso em que bastava mencionar o que já fez para ficar evidente que era entre os candidatos aquele que mais se preparou para ser presidente do país. Não apenas a Direita poderia apoiá-lo. Confrontado por ser a favor do capital por Plínio, lembrou que quebrou patentes de remédios enfrentando grandes laboratórios, descentralizou a saúde pública brasileira, sempre tem sido a esquerda do PSDB, partido fragmentado em qualquer sentido observado. 

Marina Silva foi vitoriosa. Já falei em outro momento por aqui por que não voto nem votaria em Marina. Apesar da sua hipocrisia em não lembrar que estava no PT durante o mensalão e que apenas deixou o partido quando ficou claro que não seria candidata por ele, apesar das contradições de falar em campanha pobre tendo um dos homens mais ricos do país como seu vice (o que desmonta também ser mulher no poder no caso de eleita; ele paga as contas e ela fala, modelo bem machista), apesar de tudo isso, mostrou-se uma liderança nacional. José Serra mostrou-se um grande gestor, mas que não agrega, não concilia vontades. Mesmo sendo de um populismo tacanho ao ficar falando de pobres com quem conversou durante a campanha, mencionar ser uma Silva, entre outras futricas dramáticas, Marina vendia algo distinto, a unidade em torno de uma "onda verde", sendo o PV partido heterogêneo por natureza. Sua dificuldade em se posicionar sobre grandes debates nacionais podia parecer covardia por um lado mas, por outro, ao jogar para plebiscitos as questões, inibia as próprias motivações religiosas. Seria mais fácil dizer para todos que era contra o aborto, o que era óbvio diante das suas convicções fundamentalistas, mas foi flexível em nome da democracia. É difícil na história política brasileira quem fale tanto em plebiscitos quando tem de fato motivações para vencer a campanha.

Dilma talvez também tenha vencido. Na sua idade, como gestora pública experiente, aceitou mudanças físicas, ideológicas, de traços de personalidade em nome de suceder ao presidente mais popular da história do país. É inimaginável a pressão que ela deve ter sofrido a cada dia de campanha, mas não perdia o rumo dia após dia. Com dificuldade enorme para se posicionar em debates e entrevistas, era sempre prioridade falar em nome do presidente do que defender o próprio nome. É uma lealdade difícil de encontrar na política nacional hoje em dia, pelo menos desde que José Dirceu foi defenestrado da Casa Civil. Ambos leais a Lula. 

Prometi que seria algo maior do que as urnas. Então, Lula é um vencedor, talvez o grande vencedor de 2010. Seu nome e sua imagem apareciam diante de todos os candidatos a governador e presidente. Ouso dizer sem ver as propagandas eleitorais que tenha sido assim em todos os estados do país com seus candidatos a governador. Não era possível se opor a seus programas sociais sem perder votos, sua imagem garantia reeleição ou segundo turno em todas as pesquisas, dois dos quatro candidatos a presidente foram do seu partido, duas candidatas foram suas ministras, um já foi seu adversário em outra eleição. Mas não é apenas um espectro que ronda a política. Este papel cabe a Fernando Henrique Cardoso, que era única voz da oposição contra Lula. Assim não é opositor, mas comentarista político, um triste fim para quem garantiu a estabilidade econômica que permitiu os grandes saltos de Lula, nunca antes vistos na história do país.

O Judiciário perdeu. Não conseguiu definir regras claras para as eleições. Não se sabe até hoje se os "fichas sujas" podem ser candidatos. O STF se acovardou e adiou a votação para quando, olha ele de novo, Lula definir um novo ministro para o Tribunal. Omitiu-se diante de milhões de votos que podem ser anulados após as eleições. Cedeu a vontades partidárias ao deixar votar apenas com a identidade, tornando supérfluos os esforços de milhares de brasileiros que aguentaram filas por 2a via do título. Enquanto isso, o TSE tentou proibir o humor nas eleições, em ranço da ditadura que expôs seu despreparo para ser útil à construção da democracia no país. Faltou responsabilidade cívica aos ministros.

Por falar na censura ao humor, os humoristas perderam. Não conseguiram se articular para algo além de uma pequena marcha em Copacabana, quilômetros distante do TSE, para reivindicar o direito a fazer humor político. Foram os seus patrões, emissoras de rádio e TV, que contestaram judicialmente. Os diretamente interessados limitaram-se a gracinhas sobre o assunto, mas posando de heróis. Cabe menção honrosa ao gesto de Danilo Gentili de fazer ontem um show transmitido ao vivo online todo dedicado ao humor político (para assistir, clique aqui). Parabéns à TV UOL por fazer parte da iniciativa.

O povo perdeu. Com Romário, Tiririca e outros balangandãs eleitorais sendo líderes de intenções de votos para o parlamento, ficou escancarado que não é caso de voto de protesto. Há candidatos de esquerda que fariam esta função com dignidade. É voto de deboche burro, afinal mensaleiros poderão voltar ao Congresso por meio da bucha de canhão dos palhaços que pedem voto.


Mais do que isso, só o tempo dirá. Especulações virão aos montes, mas a renovação política não é algo evidente na política brasileira. O apelo de Marina e Plínio ao futuro é digno por isso. É preciso preparar o pós-Lula na política nacional. 

Nas eleições de Alagoas, por outro lado, não há vitoriosos em nenhuma perspectiva. entre candidatos a governador, três disputam o maior índice de rejeição já tendo sido governadores. Um ex-presidente que é vergonha nacional ao estado, um governador rejeitado pelos servidores públicos e um quase-ficha-suja estão em empate técnico nas pesquisas. Em quarto lugar, ex-marido de candidata ao Senado, mostrando como é frágil a renovação da política local.

A condição pré-moderna é evidente no estado-Haiti. Afinal, como é corriqueiro onde a vida urbana, a industrialização, os hábitos do século XX ainda estão incompletos, vive-se como em uma monarquia feudal, à base politicamente de magia. Parece exagero? Dos três principais candidatos, um se apresenta como "o caminho do bem" (se ainda usasse a música do Tim Maia...), outro diz ter "recebido uma missão de Lula", (como Deus o revelando ser predestinado) e um terceiro diz em debate que vai resolver a violência do estado com "a própria munheca". O excessivo personalismo, o maniqueísmo, as soluções mágicas para problemas constrangem quem lembra que já estiveram governando e não aprenderam nada.

Entre os candidatos alagoanos ao Senado, outro constrangimento. Um candidato já senador como opção óbvia para quem vota com preguiça, um candidato mais lembrado por uma dancinha ridícula no horário eleitoral do que por qualquer coisa que tenha feito quando esteve no Senado, uma candidata de esquerda que não apoia o próprio partido no próprio estado nem nacionalmente. Votarei nela como força de oposição a um governo Dilma hegemônico, pois toda hegemonia é antidemocrática. Mas o mesmo desânimo ofusca os três ex-senadores que querem voltar ao cargo. Por isso votarei nela duas vezes, pelo menos se contrapõe aos excessos esperados de um governo que fará o PT se tornar dinastia no poder. Mesmo que não encontre bancada, poderá defender suas posturas pessoalmente, como vinha fazendo quando estivera no Senado.

Para deputados federais e estaduais, apesar de ter meus nomes para defender, com a pulverização que tenho observado entre indecisos, inseguros e indignados, recomendo voto de legenda ao PSOL. É preciso garantir a democracia no país. Se o PSDB-DEM não soube ser oposição, que votemos em quem assim se posicionou durante todo o governo Lula, o PSOL. É garantia de olhar para a política mirando para o futuro, não apenas para as telas luminosas das urnas eletrônicas.

2 comentários:

analima disse...

Numa altura em que as notícias aqui dizem que ainda há indefinição quanto à realização de uma segunda volta foi bom ler este texto que, apesar de conter aspectos que cá não são falados, me parece esclarecedor. Acho até que o vou "linkar".

Sérgio Coutinho disse...

Ana,

Fico muito feliz pela sua atenção e por me dizer que o texto tenha sido útil para acompanhar nossas eleições. Fique à vontade para linkar.

Abraço.

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...