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terça-feira, 12 de outubro de 2010

Do que senti falta no 1o debate presidencial do 2o turno

Alguém lembra do último debate de Lula na Globo? Ele e seu adversário circulavam livremente por uma arena. Ideia interessante em que a Globo reproduziu o modelo americano. Em algo o debate da Bandeirantes se parecia. Os candidatos tinham plena liberdade para desenvolver temas, sem papelotes com temas pré-selecionados que entediam aos telespectadores. Mesmo assim, talvez por isso, o debate foi paupérrimo.

Quantos temas foram abordados? Privatizações pareceu ser tema esgotado na ocasião. Os candidatos também esclareceram suas posturas sobre a polêmica da semana, o aborto: ambos são a favor da saúde da mulher que aborta; menos mal, ninguém se apegou a hipocrisia ou populismos baratos sobre o tema. Portos, ninguém foi satisfatório. Educação e Saúde, abstratos nas mãos de ambos. No geral, cheguei com o debate a apenas uma conclusão. Seja quem for nosso próximo presidente, será alguém muito chato. O tecniquês, o tom de deboche frente a quem discorda ditam as falas de ambos; nada da fina ironia de Efeagá ou das metáforas bem encaixadas de Lula. Mas, sem tergiversar nem trololó (quem viu o debate, sabe o porquê da escolha de palavras), o debate foi pobre. 

Nada foi dito sobre 15% da população brasileira, as pessoas com deficiência no país. É urgente ter medidas claras sobre acessibilidade. Nem sobre 12 milhões de descendentes de países de maioria islâmica o que habilita o país a ser a quarta nação árabe do mundo (vi esse dado na última semana e não saem implicações da cabeça). Muito menos sobre as omissões da Lei do Livro, não regulamentada sobre áudio-livros nem sobre a distribuição de títulos em bibliotecas. Mas, sejamos mais pontuais sobre problemas.

A Classe C ditou o debate. Ela é em grande parte evangélica, conservadora em seus hábitos, consumista, tem se apegado ao ensino. Como se converteu em nova classe média nos últimos 15 anos, foi beneficiada pelos dois últimos presidentes. Começou a estudar no ensino superior por mensalidades subsidiadas por meio do Prouni e por um aumento nas universidades públicas. São dois caminhos que se converteram em complementares no aumento médio da escolaridade do povo brasileiro. Do mesmo modo, o começo da mensuração de qualidade no ensino fundamental com Efeagá teve grande aperfeiçoamento no governo Lula. Se os presidenciáveis queriam falar realmente em Educação, deveriam mostrar esses modelos com clareza, o que terá continuidade nos próximos anos. 

Querem o voto do eleitor de Marina Silva. Marina defendia o vínculo de um percentual do PIB ao investimento em Educação. Mas também não foi comentado. É melhor ver Marina como novidade ética que fala bem na disputa eleitoral do que lembrar que era única peça nas eleições do 1o turno com plano de governo registrado. Espero que ambos respondam à agenda mínima que, dizem no PV, Marina estaria tecendo para apresentar a ambos antes de decidir quem apoiará no 2o turno, caso apoie alguém. 

O próximo presidente da República acompanhará a realização no país de uma Olimpíada e de uma Copa do Mundo. Os dois eventos significam enormes investimentos infraestruturais nas cidades em que se realizarão os jogos. É preciso falar sobre trânsito nas grandes cidades, sobre redução da poluição, sobre combate à criminalidade (não apenas sobre presídios e guardas nacionais, como falaram soniferamente os debatedores do último domingo), sobre capacitação de gente para atender em diversos setores da economia brasileira. 

A propósito desta capacitação e desses eventos, voltemos à educação. Será preciso confrontar dois grandes problemas do ensino brasileiro: somos culturalmente monoglotas e tupinicocêntricos. Aprende-se pouco e mal qualquer outro idioma e há descaso com o que se passa no mundo. Seja quem for o próximo presidente, precisará aprender com Lula. O atual presidente é reconhecido mundialmente como estadista. Muito tem sido lembrado que deu prosseguimento a excelentes programas sociais e à estabilidade econômica ditadas pelo seu antecessor. Então, se Efeagá foi grande administrador, Lula tem sido líder. Não apenas no Brasil, mas por onde passa. Quando se ofereceu como mediador em diversos conflitos internacionais, foi atendido pelas partes em conflito. Nem uma palavra no debate sobre a posição do Brasil na política internacional. No primeiro dia de mandato, seja quem for que presida o país ligará para chefes de Estado de dezenas de países e receberá de muitos ligações. Eu gostaria de já saber o que teriam para dizer.

Publiquei pouco antes deste texto um vídeo no blog em que Lula se posiciona sobre o Bolsa-Família e fala em 2000 sobre o perigo do governo distribuir comida. Seu receio de 2000 é interessante. Afinal, o Bolsa-Família movimenta a economia de pequenas cidades. Garante a existência da feira. Tem sido sinônimo de proteína na mesa para milhões, o que garante melhor rendimento escolar para crianças alimentadas. Além disso, fortalece o papel da mulher na família, uma vez que a maioria dos cartões são entregues para elas. Superou o papel, portanto, de distribuição de renda. Enraizou-se, para o bem ou para o mal, nas políticas públicas brasileiras. Pois estando ambos sob a sombra de Lula, sabendo da diferença que os cartões de plástico fazem nos votos do Norte e Nordeste, nenhum dos dois falou sobre o que significa para eles. Nem mesmo nos debates do 1o turno. Como bem quase chora de tanto repetir o senador Cristóvam Buarque, mais importante do que o cartão é o que está ao seu redor. Quais os critérios para receber o cartão e para a definição do valor pago? Haverá a cobrança da presença das crianças na escola, de que sejam vacinadas, de que seus pais tenham procurado emprego ou procurado cursos profissionalizantes caso sejam desempregados, enfim, o que significa o Bolsa Família para os dois candidatos? Até hoje, não sei.


Marina não se omitia sobre tema algum e puxava tantos outros. Por esses dias, disse que escreverá um artigo sobre o que viu no filme Tropa de Elite 2 (que assistirei durante o Dia das Crianças, gesto meigo meu). Os dois candidatos apenas palpitam sobre o que estiver em evidência entre as fatias do eleitorado que visam conquistar. Pois lembro a ambos que mulheres não passam o dia pensando em aborto, que quem ganha até 3 salários mínimos não quer saber apenas de um celular novo, que quem vive no campo não quer só sacar o Bolsa Família, que policiais não se satisfazem com uma bolsa formação. Por falar na Tropa e na bolsa formação, Serra criticou os objetivos não realizados pelo Pronasci. Nada propôs em troca. Fiquei aguardando e o bloco acabou. Dilma também não respondeu. Segundo dados de 2005 de Luis Eduardo Soares, mais de 70% das investigações sobre homicídios no RJ não eram concluídas. A criminalidade aumentava mas varas criminais eram fechadas. Serra disse que reduziu homicídios em SP e faria o mesmo pelo Brasil. Lugar de promessa é no horário eleitoral e em palanque. Em debates, deveria haver oportunidade para ir mais longe.

Foi apenas o primeiro debate. Eis um pedaço das minhas pautas do que gostaria de ver sendo discutido antes de votar. Já declarei meu voto e não vi ainda motivo para alterá-lo. Mesmo assim, não há também motivo para comemorar seja quem for o primeiro colocado das urnas se ainda deixar mais dúvidas do que esclarecimentos.


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