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terça-feira, 14 de setembro de 2010

Por que pessoas com deficiência devem voar pela Passaredo

Antes, uma lembrança de alguns anos atrás. Conversava com alguém da direção da Adefal e o moço disse algo interessante. Falávamos sobre lazer e acessibilidade. Ele disse "é... não tem acessibilidade nenhuma nos cinemas daqui... precisamos ir mais ao cinema". Essa é a ideia que me move para falar na Passaredo.

Os programas de milhas ficaram mais próximos da classe média baixa. Todos têm cartão de crédito. Toda classe social tem pessoas com deficiência. Com os 20 milhões que ascenderam à classe média nos últimos 15 anos, há mais ainda. Então, a lógica é simples: muitas milhas para gastar em voos. Não pensemos apenas em quem recebe Benefício de Prestação Continuada, mas em todos que fizeram mestrado e doutorado mesmo tendo deficiência, naqueles que estudaram em escolas acostumadas com inclusão educacional, principalmente, em quem já trabalha há algum tempo em empresas que têm cotas para quem tem deficiência. Nesses casos, têm facilidade para viajar.

Porém, a Passaredo parece discordar. Apesar do atendimento até doce de tão gentil na rota Goiânia-Brasília semanas atrás, o jatinho da Embraer adaptado para mais passageiros é um horror de acessibilidade. A escada para entrar e sair do avião é própria, nada de ter rampas externas possíveis. O corredor é como "oitão" de casas antigas, um vão que dá acesso para o carrinho DELES, não para cadeiras de rodas ou carrinhos de bebês. Idosos com andador não passariam também. 

Se for diabético, não puder comer glúten ou tiver qualquer outra limitação alimentar, é provável que você morra. O cardápio presume que todos são saudáveis para comer o que oferecem, sem alternativas. De que vale terem me atendido bem se não forem voltados a atender a todos?

A dica é: apenas vão se adaptar para todos se todos forem aos voos. É incômodo, mas sem pressão não há consumo justo. Sinais disso podem ser vistos por todos os lados, quando acompanhamos as tropeçantes adaptações em aeroportos, por exemplo.

Vejamos o aeroporto da capital federal. A foto abaixo foi tirada em junho, no aeroporto de Brasília. À esquerda, banheiro masculino. À direita, banheiro feminino. Ao centro, banheiro para pessoas com deficiência. São, portanto, para a administração do aeroporto, como anjos sem sexualidade. Não é um erro isolado.


Se são gente, por que os banheiros adaptados não se encontram após as portas dos banheiros masculinos e femininos, em vez de entre elas? Bastava, para a dignidade, tê-los um pouco mais ao lado, entre as pessoas do mesmo gênero.

A inclusão da pessoa com deficiência no mercado de turismo pressupõe a defesa passo a passo do direito de ir e vir. Porém, antes disso, forçar o direito de ser percebido. Quem não está acostumado a perceber que estão no caminho, cometerá excessos por estarem fora da rotina. Vamos confiar na boa vontade dos serviços para aprender com seus erros e processar quem não quiser mudar. 

As adaptações inclusivas têm surgido. Se você for cego, contará na TAM com instruções de voo em braille. Basta que você leia isso no informativo deixado nos assentos. Entendeu? Primeiro, precisa ler com seus olhos para depois dizer que é incapaz de fazer isso e pedir em braille. Mais do que a ação disastrada, importa a tentativa. Querem dar atenção, mas não sabem como. Quantas pessoas na capacitação daqueles funcionários já trabalharam com pessoas com deficiência, para orientar sobre pequenas coisas que podem impedir o voo de um passageiro?

Alguém poderia dizer que é possível que o instrutor da capacitação tenha avó, ou que ele já tenha empurrado carrinho de bebê com seu filho. É possível que ele já tenha quebrado um braço ou uma perna jogando bola com amigos. Porém, as hipóteses de mobilidade reduzida não costumam fazer quem as tem ser capaz de olhar ao redor, apenas querem se livrar do próprio limite em vez de ver que não estão sós. A transitoriedade faz isso com as pessoas.

Será preciso, portanto, forçar a visibilidade, provando que existe durante a viagem. Os próximos viajantes agradecerão, mesmo você se voltar pra lá e constatar que aprenderam com os erros. Mas agradecerão a você, não às empresas. Atender bem aos clientes é obrigação negligenciada.


2 comentários:

Rogério Brandão de Faria disse...

Infelizmente, apenas um exemplo. A realidade é que o mercado de turismo, incapaz de atender as demandas das pessoas com deficiência, é reflexo de uma sociedade também cega (o trocadilho é proposital) em relação as pessoas com deficiência. Creio que o melhor exemplo do desrespeito social são as rampas de acesso às calçadas que são, diarimante, interditadas pelos veículos que estacionam à sua frente.
A mudança deve ser profunda, e tem que ser feita. Imediatamente!

Sérgio Coutinho disse...

Pelo seu ponto de vista, precisa estar presente no Forum Alagoano de Passeios e Calçadas, já divulgado no blog e que vai acontecer nos dias 29 e 30 de setembro no Centro de Convenções de Maceió. Vamos ver se a partir deste evento as políticas públicas passam a ser capazes de enfrentar o problema da efetivação do direito de ir e vir. Abraço!

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