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quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Cuidado com as piadas do horário eleitoral. Podem não ser gratuitas.


Por cerca de 15 segundos, Bruno Motta falou no bate-papo do Uol sobre política. Valeram por muitos 50 minutos diários da propaganda eleitoral.

Lembra de candidatos a deputado que falem em defesa de artistas de circo? Existe a dificuldade para regulamentar a diversidade de atividades que constituem a vida circense, assim como distinguir animais selvagens e os já adestrados há gerações que apareciam em circos brasileiros. Não se sabe que direitos trabalhistas existiriam, como cuidar de normas obrigatórias de segurança para trapezistas. Então, quando um candidato se apresenta como palhaço, como o onipresente Tiririca, tem representatividade social suficiente.

Bruno Motta refletia bem no bate-papo do Uol. Ele questionava como fica estranho pensar que o que todos estão rindo no horário eleitoral quando Tiririca aparece pode ser algo sério. E, de fato, até poderia. Basta refletir na diversidade da população brasileira e quantas comunidades podem ser desperdiçadas no cotidiano político.

Pensemos nas mulheres frutas, por exemplo. Antes de tudo, são funkeiras, assim como Valeska Popozuda e Tati Quebra-Barraco. O baile funk está tombado como patrimônio cultural do Rio de Janeiro, após longa luta com a Assembleia Legislativa do Rio que visava fechá-los. Foi preocupante. Têm grande importância para a economia de diversas comunidades além de, como foi dito pelos seus defensores na própria Assembleia, ser única opção de lazer para milhares de pessoas que, sem os bailes, estariam bebendo o tempo todo ou no ócio menos criativo possível pelas ruas. Então, já pensou, como Bruno bem pontuou, se as candidaturas forem sérias?

Quase todos os meses, em Maceió, a Feira do Rato aparecia em algum programa da Globo, pelo estranho ritual de feirantes correrem para tirar suas mercadorias da linha do trem a cada horário de viagem. Será que quando o tradicionalíssimo comerciante de lá "Galego do Veneno" se candidatava a vereador (não sei se agora é candidato pois não assisto ao horário eleitoral gratuito) não representava ninguém e era motivo apenas de riso?

Chovem ex-atletas decadentes que querem pagar suas dívidas acumuladas com o auge e com juros do ostracismo usando salários parlamentares. Porém, ouvindo tantos deles no eixo Sul-Sudeste não poderíamos encontrar quem de fato teria o que dizer faltando poucos anos para uma Copa e uma Olimpíada no Brasil? A fauna é selvagem demais para distinguir vozes racionais, muitos diriam, mas até que ponto nosso riso pode ser sintoma de que não conhecemos bem a diversidade de problemas da multidão de grupos que constituem nossa sociedade? Quem representaria a todos? 

Quando políticos tradicionais que já se encontram decadentes na opinião pública conseguem sustentar seus cargos pela carona com "puxadores de votos" como estes, pode ser interessante quando entre eles estiver quem saiba do próprio peso político. Após quatro anos de mandato, não há notícias cômicas de Frank Aguiar como deputado federal e a única excentricidade de Clodovil parece ter sido a decoração do seu gabinete (comprovadamente com dinheiro próprio). 

Então, como talvez quisesse dizer Bruno, onde ficarão as nossas piadas quando quem nos faz rir tiver o direito de falar sério? Não faça como Tiririca, não subestime as eleições: sempre pode ficar pior do que está.

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