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segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Um texto sem fotos, mas sobre imagens fortes

A revista Time publicou uma foto extremamente comentada, mais do que o próprio texto, com certeza, em sua edição da semana passada. Mostra a adolescente afegã Bibi Aisha, de 18 anos. Ela teve o nariz e as orelhas cortadas pelo Talibã por tentar fugir de casa, onde era vítima de violência. 

Bibi fará cirurgias para a reconstituição de seu nariz e de suas orelhas. A revista pediu desculpas em seu editorial àqueles que considerem de mau gosto a imagem. Mas será que entenderíamos bem a situação com a descrição? Essa é a reflexão pertinente que a revista levanta

Se vivemos em um mundo de imagens, dominado mais por estímulos visuais e aparências do que por reflexões e textos, para mostrar que é preciso que as tropas americanas permaneçam no Afeganistão imagens assim fazem refletir. Afinal, quantos leram o artigo, comparados a quantos viram a capa em sites ou em bancas de revistas? 

Quando se vê o que o Talibã é capaz de fazer, é preciso pensar nos limites do multiculturalismo. Polissílabo polissêmico, por vezes é traduzido na prática acadêmica não como tolerância à diversidade cultural, mas como omissão diante de tragédias. Que tal moderar os abusos contra a dignidade da pessoa humana com o fundamento kantiano que recomenda agir segundo uma ação que possa se tornar universal? É simples e modera racionalmente excessos.

O blog 7x7 comentou a reportagem com ênfase no papel da presença militar norte-americana na defesa de direitos das mulheres. Elas temem que, com a possibilidade de saída das tropas, casos como o da foto que não era para a capa (que Chico perdoe a citação) tornem-se comuns.

Mas algo incomoda especialmente. Quanto aos excessos contra mulheres muçulmanas, comentei faz poucos dias o abuso de autoridade do Estado francês, impedindo símbolos religiosos mas com referência explícita a véus e burcas. Usados por mulheres. Agora, polêmica com mutilações faciais no Afeganistão. Contra mulheres. É comum encontrar quem defenda o multiculturalismo relativizando a mutilação física em tribos africanas. Do clitóris de mulheres. Não seria o multiculturalismo um novo machismo que não diz seu nome por não ser politicamente correto? Penso que sim. As conquistas históricas das mulheres, à base de sangue dos dois gêneros e de violência doméstica até nossos dias, é reduzido a um valor ocidental. Que seja ocidental, mas inspiração para conquistas humanas em outros países.

Voltando para a foto. Não, não precisa ver mais uma vez, apenas relembrando. Faz alguns anos, assisti à defesa de uma pesquisa muito interessante de uma estudante de graduação em Ciências Sociais da UFAL. Quando ela procurou pessoas que foram entrevistadas por programas policiais, levava consigo o olhar da classe média, de que são exploração pura dos pobres e exagerariam sobre a violência urbana. Os entrevistados, não mais vistos como vítimas, falavam com orgulho por suas imagens aparecerem na TV. Não, não se tratava em seus depoimentos do culto à celebridade instantânea. Como bons sociólogos práticos, vários questionaram se o restante da cidade saberia que eles existiam, que aqueles bairros estavam no mapa, que a periferia tem gente se não aparecessem naqueles programas. Há violência, erros de português, omissão de políticas públicas? O mundo-cão é tristemente real e as imagens exageradas são sinal de que se exagera na violação à dignidade.

4 comentários:

Rogério Brandão de Faria disse...

Mais uma vez, grande texto. Entendo que o multiculturalismo é um dos maiores patrimônios da humanidade. Há que se ressaltar, entretanto, que o multiculturalismo deve sempre vir acompanhado do idéia de alteridade. Respeitar o outro em todas as suas formas. Sem isto, o multiculturalismo tem uma forte tendência a se torna um meio de escravização, onde o mais forte impõe-se, pela força da violência. Com bem citado, temos abundância de exemplos. As culturas devem ser sempre respeitadas, contudo, o homem, como formador do processo cultural, deve sempre vir em primeiro lugar. A dignidade da pessoa humana não pode ser ignorada por argumentos culturais. E mais, ainda me questiono se estamos mesmo diante de uma forma de cultura. Não seria mais apropriado denominarmos dominação???

Sérgio Coutinho disse...

Exatamente, Rogério. Concordo. Mas ainda tem algo latente para ser examinado. Diante da falsa questão de quem pode interferir nos padrões culturais alheios, as relações coloniais de dominação foram substituídas por novas formas de opressão, locais com omissão internacional disfarçada de diplomacia ou respeito à cultura do outro. Mesmo que isso signifique desrespeitar o outro. Abraço.

analima disse...

Muito bom texto que toca em pontos fundamentais.

Sérgio Coutinho disse...

Obrigado, Ana.

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