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terça-feira, 17 de agosto de 2010

Por que nossos candidatos querem tanto ser vítimas?

De repente, parece que pobreza no passado virou atestado de honestidade e competência. Se empacotar o produto em discurso de sofrimento, melhor.

José Serra dizia no fim do debate que era de família "simples" após ter falado de matar saudade dos amigos do pai na feira; Marina Silva repetia e repetia que era mulher vinda da favela, alfabetizada já adulta; Plínio de Arruda reclamava porque não lhe davam atenção por ser de esquerda; Dilma não entendi o que dizia... por que ser candidato virou sinônimo de mostrar biografia com sofrimento?

Será que o povo brasileiro espera um presidente que lamente a própria sorte, que fique a todo instante, como Lula repetindo que é operário, nordestino etc.? Quanto mais distantes estivermos de uma sociedade preparada para a Modernidade, mais próximos estaremos de líderes que buscam ser heróis, sempre superando dificuldades pessoais em nome de uma missão. De repente, todos ficaram assim.

Mesmo Netinho de Paula se apresenta em São Paulo como ex-menino-que-vendia-doce nas ruas. Cansa ver em Alagoas candidatos que se apresentam como forças "do bem", como se todos os outros fossem perversos. Esse caráter entre o emocional e o martírio religioso é típico de sociedades pré-modernas. Ainda não cientes das técnicas de convivência no espaço urbano, cidadãos ainda dependem da magia, da tradição, do poder maior de pessoas aparentemente especialmente dotadas para cuidar dos seus problemas. Nobres, sacerdotes, reis. Não é o que se espera de uma República Federativa de maioria da população urbana com chances de erradicar a miséria nas próximas décadas.

Espera-se da Modernidade que os líderes sejam escolhidos por critérios de competência, demonstrando habilidades para o cargo. Apesar da aura de salvador da crise financeira, Barack Obama mostrava em sua campanha presidencial que estudou em boas universidades, todos sabiam dos seus livros que lhe deram uns milhões em vendas antes de ser eleito, de sua atuação como advogado. Se fosse no Brasil? Todo seu discurso seria baseado em eleger um negro filho de imigrantes e nada mais.

Apesar disso, elegeram Bush e depois seu filho que tinha como principal razão para ser eleito a ascendência. Além desse aspecto estamental, é preciso lembrar que ele dizia que Deus queria que ele fosse presidente, que representava as forças do bem contra o "Eixo do Mal" no Oriente Médio, entre outros aspectos que mostram resquícios medievais no nosso século. Não se apresentava como mártir, mas como de família poderosa destinada a salvar o país. Nada muito adequado a tempos capitalistas, pós-modernos, ocidentais, mas que ressalta que não é simples explicar linhas de tempo. As representações sociais por vezes obedecem a padrões de imagens de outras épocas, por mais anacrônicas que pareçam.

Há alternativa, ainda bem, para nossos candidatos. Como não assistirei ao horário eleitoral muito caro de TV, resta torcer para que parem de subestimar suas biografias e deixem de apostar em ser réplicas do Lula. Digam não à pirataria, em todas as formas.

2 comentários:

Wanessa Oliveira disse...

Não entendo exatamente como poderíamos definir em que era estamos, (modernidade, pré, pós...), quando vejo dez cidadãos 'andando para frente' e outros cinquenta quase sempre permanecendo atrás. Talvez pensando apenas por uma lógica política perversa, nossos candidatos devem calcular (isso mesmo, calcular) que são os cinquenta lá atrás que irão votar nele, e não os dez. Margens de erro? Dos cinquenta, quarenta sabem pouco mais do que escrever o próprio nome, vinte chegam a assistir um Jornal Nacional de vez em quando e dez, ou cinco, ou 0,5 talvez se pergunte: Será que estou aqui, tão atrás, porque tem que ser assim ou por, talvez, uma INJUSTIÇA? Talvez você nem tenha, Serginho, essas minhas contas doidas, mas também talvez nem precise... O fato é que os candidatos sabem muito bem que repetindo a fórmula "eu-sei-como-vocês-se-sentem-porque-também-estive-aí-atrás", despertarão na maioria dos eleitores um sentimento de identificação (ele nos entende, porque é como nós. O poder vai ficar com alguém como a gente!), de superação (ele chegou onde está, é um exemplo! Podemos chegar também) de cooperação (olha só como ele sofreu! Tadinho...merece a chance). Funcionou. Funciona hoje com Lula, funciona com nosso prefeito Cícero Almeida. A personagem representada, a massagem no ego, a sensação de se ter uma espécie de 'reflexo' seu lá 'em cima', no poder, está acima de quaisquer projetos de governo ou capacidade administrativa, expressões que - vamos cair na real - estão bem longe da nossa Alagoas, por exemplo, de onde 56% vive em pobreza absoluta... Fazer-se de vítima é o jeito mais rápido de criar uma empatia com as verdadeiras vítimas...

analima disse...

Muito interessante esta sua reflexão. Como actualmente nada do que os candidatos a um cargo de elevado nível fazem ou dizem é um acaso partimos do princípio que este tipo de discurso faz parte de uma estratégia que, tal como refere a Wanessa, resulta muitas vezes. E como a maioria dos eleitores não descodifica os discursos dos políticos, no sentido em que ouve apenas o que dizem e não se questiona sobre as motivações desses discursos, tudo isso vai funcionando.

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