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quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Onde está o humor político do brasileiro?

Um dia, William Bonner disse numa entrevista que o Jornal Nacional era feito para o brasileiro médio, que corresponderia ao Homer Simpson. Infelizmente, a quantidade de comentários sem senso de humor que se seguiram fizeram o jornalista perder a boa piada e sentir obrigação de se desculpar. 

Por falar nos Simpsons, sobraram brasileiros que reclamaram porque em algum episódio de algum tempo atrás macacos assaltaram a família em visita ao país. Há poucas semanas, a internet brasileira balançou quando Sylvester Stallone disse na Comic Con que gostou de filmar no Brasil porque explodia o que queria e ainda ganhava um macaco no fim do dia. 

Nós nos ofendemos com muito pouco, com piadas sobre o país, mas podemos rir de portugueses, de loiras, de gaúchos, desde que não permitam ter uma visão de país. Não aprendemos nada com o stand up americano tão em moda no Brasil nem com a multidão de seriados americanos de humor por TV a cabo. Se a opinião pública dos exemplos acima foi percebida por meio da internet, e se a internet apenas recentemente tem se expandido pelas classes C e D, a classe média brasileira não é capaz de rir de si mesma.

Se esses exemplos forem suficientes para pensar sobre o senso comum nacional, é possível arriscar alguma opinião política. Com o senso de humor que a opinião pública brasileira demonstra, o Tribunal Superior Eleitoral deveria deixar os humoristas em paz. Afinal, a audiência deles não entende piadas que vão muito além da repetição de bordões e do pastelão. Se não conseguem rir de si mesmos, rindo das piadas feitas sobre o próprio país, então não podem entender humor político, mas apenas piadas rápidas sobre candidatos em campanha eleitoral (tenho dúvidas até disso...).


Que o diga o procurador eleitoral Sérgio Monteiro Medeiros. O Ministério Público Eleitoral de São Paulo apreciou duas representações contra o que Tiririca vem dizendo no horário eleitoral mal pago de TV. Arquivou ambas. A Folha de São Paulo publicou hoje alguns fragmentos dos argumentos do procurador:

"O candidato expressa-se à sua maneira uns gostam, certamente, outros não--, não configurando desrespeito de modo algum, mas perfeita compatibilidade com a direito à liberdade de expressão assegurado na Constituição que, nessa seara, só encontra limite na lei eleitoral".
"É um modo de expressar jocoso, crítico, popular, mas e daí? Quem disse que as campanhas eleitorais visam a atingir o erudito, os mais estudados? O Brasil é uma democracia, não uma oligarquia. Até os analfabetos votam, e os que apenas sabem ler e escrever podem ser votados. De fato, não tendo o candidato agido de forma ofensiva, desrespeitosa, enfim, sequer inadequada do ponto de vista legal, não há porque ser repreendido".
"(...) uma ingerência indevida pela Justiça Eleitoral (através de seu poder de polícia ou pela via afitiva) poderia mesmo afrontar os direitos políticos do candidato, constitucionalmente garantidos. Resta claro que não há o que se representar à Justiça Eleitoral. Não há infração à lei!". 

Tiririca pode continuar sendo um herói do humor político brasileiro. Se condenado, seria o mártir da marcha do fim de semana contra a censura ao humor político. É o último humorista em atividade falando sobre política na TV. Fala de um modo que o público entende, seja isso bom ou não, como bem reflete o procurador.

A propósito dos humoristas que fizeram a marcha no último fim de semana. Por que ficam tão à vontade para fazer perguntas de difícil resposta para celebridades de TV e políticos em campanha mas não dão uma passadinha nos gabinetes dos ministros do Tribunal Superior Eleitoral? Bastaria apontar um microfone falando sério e não correriam risco de prisão. Por que não cobrar deles em vez de apenas marchar fazendo piadas entre amigos?


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