Translate

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

"O Bem Amado", segundo Danilo Gentili

Danilo Gentili escreveu em seu blog um texto que, como diria o CQC em seus primeiros meses, tornou-se um ícone sobre o humor brasileiro. Lembrei do que ele dizia quando assistia hoje a "O Bem Amado", de Guel Arraes, baseado na obra de Dias Gomes.

A grande polêmica do original era a relação de personagens, frases, gestos com políticos reais. Na nova versão, engraçadíssima por sinal (quase que eu e boa parte do cinema não parávamos de rir), nada da política real contemporânea está presente. As frases e situações continuam sendo de outra época. Alguém poderia dizer que foi intencional, para preservar o texto original. Não é bem assim.

Há mudanças, como a erotização das irmãs Cajazeiras, bem como da filha do prefeito (que curiosamente só aparece no filme para tirar a roupa para entrar no mar). Estranhamente, nas duas situações há romances com homens castos de mulheres que apenas estão no filme para falar em sexo. Atualização já anacrônica, portanto, em que machismo fica bem evidente. Outra é a redemocratização, com imagens reais nacionais entre os anos 1950 e 1980, apesar do filme ridicularizar a democracia a todo instante. Mas vá lá, é uma atualização.

Contudo, a perspectiva de Gentili é preocupante. Assistir ao filme depois de ler seu texto dá contextos que se repetem na crônica audiovisual nacional. Podemos rir, e muito, com Justo Veríssimo, Grande Molusco,  João Plenário, Odorico Paraguassu, mas nossos humoristas são extremamente cautelosos para rir de políticos e fatos reais. Se Dias Gomes soube fazê-lo, hoje não se repetia. A caricatura das personagens beira o pastiche, com grandes interpretações apolíticas. Há um constante cuidado em não fazer parecer com nada real de hoje, mas apenas o que os outros personagens mencionados tanto mostram: basta mostrar ao povo o senso comum de que política é coisa suja e que são todos iguais e ficar por isso mesmo. Não é só humor medroso, é humor preguiçoso, pois fazer rir com o cotidiano das relações de poder envolve esforço.

Ainda segundo Gentili, o problema, em parte estaria no fato de TV ser algo caro. Com tantos anunciantes, patrocinadores, como também tem o cinema, ainda mais o nacional, é difícil ter plena liberdade de expressão. Que o diga o filme chapa-branca sobre a vida de Lula. Infelizmente, um dia tivemos TV Pirata, Casseta&Planeta (que descanse em paz) e hoje o Custe o que Custar mostra que é possível rir do poder. 

Quem já viu em algum momento o Saturday Night Live sabe que nos EUA, como bem lembra em várias situações Gentili, o humor não tem medo de se confundir com o jornalismo. Os políticos também não temem os humoristas, tanto que vão aos seus programas. Quando falam de igual para igual, é sinal de aptidão para o poder encarar o adversário em seu campo. É a democracia, recusada quando o Estado brasileiro reprime a liberdade de expressão de humoristas no período eleitoral, como comentei no começo da semana. Pensando bem, o TSE se esforçou à toa. Os próprios humoristas já se reprimem, não precisavam de ajuda para isso.

No programa argentino Gran Cuñado, a influência em parodiar políticos no que eles faziam no dia-a-dia (não apenas ficar fazendo 'ad nauseam' piadas com a língua presa do Lula como o Zorra Total) chegou a tal ponto que os próprios parodiados se comportavam nas entrevistas como as sátiras e o povo lembrava melhor deles pela piada do que pelo que faziam. Talvez não seja à toa que também de lá surgiu o Caiga Quien Caiga. É fácil falar sobre notícias de jornais nas ruas da capital.

Sucupira, por outro lado, nem mesmo está no mapa, apesar da deslocada cena final do filme. Referem-se à mítica "Capital" e à vizinha "Santana", nome genérico de qualquer lugar. Assim, fica o humor involuntário das caricaturas parecerem com o cotidiano político do interior alagoano, uma vez que foi filmado no estado. Se Paula Lavigne mirou apenas nas vantagens fiscais oferecidas pelo governo local e nas paisagens (ótima escolha), acertou sem querer no imaginário político do estado por diversas vezes. Infelizmente, para apenas dizer que política é isso aí e acabou, sem qualquer reflexão que valha a pena. 

Pelo menos, fica Odorico como boa lembrança.

0 comentários:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...