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terça-feira, 6 de julho de 2010

Para não dizer que não falei da Copa...

Ainda não tinha comentado a Copa do Mundo por aqui. Então, vejamos um ou outro problema para começar um exame quase pós festa.
Foi vergonhoso ver as imagens de seleções igualmente derrotadas sendo recebidas com aplausos nos seus países (como Itália e Argentina) enquanto, como sempre, recebemos nossos atletas com frieza nos aeroportos. Triste, muito triste, e hipócrita. A hipocrisia é evidente porque antes eram os 190 milhões em campo, cada brasileiro era guerreiro, era o nome do país em jogo etc. Sem discutir os exageros ufanistas que aparecem de quatro em quatro anos, nas guerras de verdade, guerreiros vencidos são recebidos como heróis por aqueles que eles defenderam. O jogador alemão estava certo, só errou de país. Não é a Argentina que não sabe perder, somos nós. 

Um outro problema é como a crítica de futebol está em crise. É muito fácil montar mesas redondas e já não importa mais quem estará lá. Vi programas de TV em que eram convidados atores da emissora e se perguntava o que acharam do jogo. "Não vi", "Não entendo de futebol". Quando vinham respostas sinceras. A  palpitaria é tão gritante que no dia em que toda a comissão técnica brasileira foi demitida já era divulgada uma lista de quatro técnicos. Dia seguinte, Ricardo Teixeira afirma que não há ainda nome algum. Por isso até eu me sinto no direito de falar agora aqui um pouco sobre futebol.

Em tempos em que explodem informações inúteis por todos os lados (pra que raios alguém quer saber quantos quilômetros cada jogador correu com a bola ou que time tem mais tatuagens?) ninguém falava nada sobre a greve dos trabalhadores da Copa, cidadãos da África do Sul que até hoje não receberam por terem trabalho como temporários. Também não se comenta a construção de um estádio novo ao lado de um que precisava apenas de uma reforma. Não há mais filtros eficientes para as informações porque não há cronistas esportivos novos, como bem alerta em tom nostálgico mas coerente Luis Antônio Giron hoje.

Chovem piadinhas rápidas por twitter, facebook, todo lado, mas falta quem analise sequência de jogos para falar a identidade da seleção do país. A Holanda era analisada segundo copas nas quais nenhum dos jogadores havia ainda nascido. Os comentaristas antigos, com os vícios de excesso de informações dos mais novos mas com o pedantismo da memória da experiência profissional, diziam "esse lance parece com fulano na copa de 84...". E eu querendo perguntar "E daí?". Em nada aquela reflexão ajudava a entender melhor um jogo.

A transmissão de informações sem pensar no que se diz é tão rápida que corneta de pvc virou Vuvuzela, bola de futevôlei virou Jabulani e piriguete paraguaia virou musa da Copa. Copinha xoxa, morna, de poucos bons lances e um ou dois bons jogos faz dessas coisas: é preciso procurar bobagem para encher noticiários.  Tão fraquinha que o que ganhou versões e é cantarolado não é a música oficial, mas a do patrocinador.

Mas vem uma boa notícia: domingo já terá terminado.


2 comentários:

analima disse...

Muito, muito bom este seu texto. Eu gosto de futebol. Mas esta sua análise vai ao fundo de algumas questões que poucas vezes são colocadas. E esta situação no Brasil não é muito diferente do que se passou e passa em Portugal. Por aqui, por enquanto, o seleccionador nacional mantém-se. Tudo o resto é igual.

Sérgio Coutinho disse...

Ana,

Muito obrigado pelas suas palavras. Bom receber essa experiência de como são as coisas por aí. Triste, mas sempre haverá o tempo entre uma e outra copa para, quem sabe, se aprender alguma coisa positiva coletivamente. Abraço!

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