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sexta-feira, 9 de julho de 2010

Enquanto eu assistia a "I Love You, Phillippe Morris", no cinema...

Estive nessa semana no cinema para ver "I love you, Phillipp Morris", traduzido como "O golpista do ano". Lembrei do que havia escrito sobre como não sabemos lidar com beijos (quem não leu, aqui). Além de ser um filme muito engraçado, com atores interpretando personagens com cujas características já estão acostumados, tive um segundo show no cinema. Às vezes, era tão interessante observar a plateia quanto o filme.

O filme fala de uma história de amor entre dois homens. Logo que o protagonista se declara gay, surgem risos no público, mas o silêncio no cinema é impressionante quando ele está se declarando para outro homem. Do mesmo modo, surgem risinhos quando seu namorado o chama para dançar, mas se calam quando os dois estão dançando. 

Talvez acostumados com as caricaturas homofóbicas mostradas pela TV brasileira, ficaram chocados diante de dois homens dançando com carinho, sem precisar fazer graça alguma, como qualquer casal. Assim também nas declarações de amor. Tirando do que é diferente o aspecto patético, torna-se difícil acompanhar.

Dois casais saíram do cinema durante a sessão jogando com força o saco de pipoca no chão. Não os culpo. A pipoca do Shopping Farol é muito ruim mesmo. Mas parecia haver algo mais do que um gesto contra o milho de segunda e excesso de manteiga de quinta. Quando eu saía do cinema, após o filme, um grupo visivelmente constrangido trocava confidências perto de mim: "O filme começou até engraçado, mas depois era tanta coisa... tanta coisa... estranha, né?". 

É importante ressaltar que não há sexo nem explícito nem quase explícito nem nudez masculina no filme, apenas dois beijos. Isso, dois. Mas um deles é um longo selinho na praia no por do Sol, bem romântico, o que casais heterossexuais que querem ver gays longe não aceitam que seja vivenciado por outras formas de convivência.

Por falar nisso, o filme possui várias fases, como a vida. O protagonista mora em diferentes cidades, exerce diversas profissões, tem diferentes relacionamentos até encontrar seu grande amor, se reconstroi na prisão e se desconstroi fora dela, enfim, como com cada pessoa tudo se transforma enquanto se vai passando o tempo. São vários papéis sociais exercidos em poucos anos.

Quando a diferença é julgada sob os limites da diferença, observamos o estigmatizado sempre medindo pelo que, para quem estigmatiza, seja fator de diferença. Assim, a pessoa com deficiência não será vista como engenheiro, casado, com filhos, mas como alguém numa cadeira de rodas como fator para olhar para tudo da vida da pessoa. Assim também, se o que gera o desprezo é a orientação sexual por não aceitar práticas sexuais entre pessoas do mesmo sexo, então a convivência do casal será medida por sua prática sexual.

Se esse casal dança sob música romântica, sai para jantar, dá volta de carro, troca confidências em cartas de amor, o filme torna-se mais pornográfico do que se tivesse dança do acasalamento. Afinal, está mostrando a realidade invisível da intimidade de dois homens que ninguém queria lembrar que estão no dia a dia. 

Assim, uma comédia de Jim Carrey teve um papel político para ensinar a casais homofóbicos que uniões homoafetivas têm carinho entre homens ou entre mulheres; ou para ensinar a ler a sinopse do filme antes de ir ao cinema.

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