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quinta-feira, 27 de maio de 2010

Lost, obrigado pelos peixes

Assisti nesta semana ao último episódio de Lost. Como todos dizem, muitas perguntas ficaram sem respostas, ainda bem. Deixei de acompanhar por dois anos e voltei vendo como aquário: acompanhava  o movimento dos peixes sem achar que aquilo diria algo. Funcionou para entender a história que, por estranho que pareça, fez sentido. A série é mais importante para a história da TV pelas novas questões que traz do que por seu enredo.

Tirando Twin Peaks (que assisti incompleto e lembro quase nada mas sei que gostei de algum modo estranho), não lembro de outro programa que tenha experimentado tantos formatos e linguagens. Lost teve ainda a vantagem sobre a série de David Lynch de sua relativa longevidade contra apenas dois anos da outra. Porém, assim como Babylon 5 (que não assisti mas de que sempre se fala tão bem), era série com data para terminar. Com dois anos, informaram que seriam seis anos ao todo e que nem tudo seria explicado, em respeito à imaginação de cada um e ao fascínio típico das obras que jamais se encerram nas mentes de quem as admira. Mas, vamos às inovações.

Lost foi o primeiro programa de TV de ficção em que a pós-modernidade transparece com mais intensidade. Afinal, a subjetividade importou mais que uma trama linear. Durante seis anos, não ficou claro quem era bandido. Era possível torcer por quem quisesse. Tramas paralelas em diferentes épocas e com distintos personagens tinham igual importância. Quem estava acostumado com a objetividade típica de sinopses de narrativas não poderia encontrar isso em Lost

A fragmentação também se manifestava na narrativa. Pedaços soltos de informações reforçavam a imaginação de quem assistia, colando ideias para decifrar pedaços de mensagens, mas dispersos por anos. Além do seriado, dispersos em entrevistas dos criadores da série, em HQs, em livros com pedaços da história, em mensagens de celular, mas sem jamais ser algo conclusivo, já que quaisquer conclusões dependeriam da imaginação do telespectador. É o modo de pensar típico do século XXI, que nos seis anos da série foi transferido para outras tantas histórias que aconteciam simultaneamente em vários ambientes, em que foruns de discussão complementavam a trama, em que tudo acontece em vários lugares, como na ilha e como nas nossas vidas.

Um dos mil exemplos possíveis disso está no último episódio. Quando Jack busca respostas com seu pai sobre a trama, ele responde que seu filho deve ficar com aqueles com quem ele conviveu durante aqueles anos, que isso era mais importante. A convivência com os personagens na ficção poderia corresponder ao que se pode ver em reality shows na semificção. Era possível perder episódios mas voltar para ver como alguém se sairia. Porém, cada personagem tinha uma história para contar, inclusive a própria ilha. Ao fim, o que importa é que construiram um lugar onde poderiam se encontrar para conviver juntos outra vez. A ideia acima de qualquer realidade. Enfim, sobram risos no fim quando se pergunta o que é real. A vida pode não ter grandes certezas, mas grandes sonhos frustrados, seja na série ou fora dela.

Para concluir a série, foi criada no último ano uma nova trama que amarraria fatos de vários anos. Enxugou conflitos, matou personagens inúteis, mas continuava sendo fundamental, contra a linearidade dramática tipicamente moderna, ressaltar quem era cada um, o que sentia, que sonhos tinha. Por isso se tornou possível acompanhar flashforwards, flashbacks, flashside, flashnãoseioquê... em experiências de narrativas paralelas com mesmos personagens que impediam o tédio diante do que se passava e em que se exigia uma atenção contínua. Mais uma vez, o que distinguia os opositores irmãos da nova trama (Jacob e homem-sinal-de-fumaça) eram pontos de vista, sem maniqueismos simples. Era possível, pensando bem, apoiar qualquer um dos dois ou mesmo rejeitar as bandeiras de ambos.

A abertura para perspectivas diversas, deixando que os telespectadores pensem livremente fará com que com os anos, os DVDs, os downloads tardios e as repetições na TV, tragam novas experiências e novos significados a quem assistir. Não é obra com final aberto, mas sim obra aberta, em que a vivência de cada um traz novos elementos. Um bom sinal disso é um nada discreto vitral na igreja das últimas cenas em que várias religiões estão representadas, para deixar claro que a vida não é uniforme no modo como é pensada nem como é vivida.

Hoje, nos cinemas, chovem adaptações de filmes passados, livros, séries de TV, HQs. Histórias originais que se propõem a fazer pensar sem deixar de ser voltadas para grande público estão próximas de ser exclusividade de séries de TV. Agora, é acompanhar Fringe, concluir FlashForward nos próximos dias e pensar, por fim, se compro um aquário.



Obs.: "Obrigado pelos peixes" é também parte do título de um dos livros de Douglas Adams, cujo aniversário se comemora nessa semana (o famoso mundialmente "Dia da Toalha") apesar de ter ocorrido semanas atrás (coisas do nonsense das obras dele).
 

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