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domingo, 16 de maio de 2010

Diante de anacronismos, o tempo não para

Li uma entrevista hoje que dava continuidade a uma velha e injusta prática. Acusava alguém do passado por ideias que nem mesmo existiam em sua época.

No caso, a entrevistada relatava que o preconceito com pessoas com deficiência era algo antigo, existindo no tempo de Platão. Tudo começa pelos termos usados. Não se entendia preconceito como hoje. Afinal, depende da ideia de que alguém possa se opor a outrem se integrar à coletividade. Se a vontade individual não era comum, a Modernidade ainda não havia surgido com a autonomia da subjetividade, então não dá para falar no conceito prévio de alguém sobre outra pessoa. Logo, não se tratava de preconceito. Do mesmo modo, o termo "pessoa com deficiência" tem poucas décadas. Eram vistas, lamentavelmente, como corpos inadequados à sobrevivência, não como pessoa. Não é fácil julgar a Antiguidade com termos de nossos dias, esquecendo que a expectativa de vida era de em média cinquenta anos de idade. 

Imaginemos que alguém, para se refererir à pedofilia, lembrasse da emancipação como cidadãos na Antiguidade consistir em relações sexuais dos mais idosos da Polis com os jovens. Havia um sentido político na prática. Não se confunde com os mesmos termos de nossa época. Condenar alguém por defender ideias sobre as quais não havia alternativas em seu tempo, por não defender ideologias que apenas surgiriam séculos depois, fica ridículo. Lamentável que seja tão comum.

Pois já vi quem criticasse Aristóteles por ter tido escravos, Marx por ter rejeitado Engels ter segundo casamento, entre outras práticas que têm um significado hoje distinto daquele tempo. Todas as ideias, todas as práticas, são temporais, não têm sempre o mesmo significado. Não podemos presumir que Aristóteles fosse abolicionista antes do abolicionismo existir. Não podemos considerar hipocrisia marxiana sem conhecer os fundamentos da educação vitoriana, não podemos ignorar a historicidade do pensamento.

Se continuarmos pensando na Antiguidade, homens tendo relações sexuais com outros homens é algo que muitos correm hoje para chamar de gays os filósofos, quando o significado homoafetivo era bem distinto da prática de escolha livre de parceiros num universo de diversidade de orientações sexuais. Não se pode simplesmente afirmar que algo "sempre existiu" se ocorrera com significados distintos em diferentes épocas. Era outra prática social, já que a representação para a sociedade era diferente.

Os anacronismos, desconsiderar o tempo na análise de ideias, são mais comuns do que parece. Muitos que estão lendo já devem ter lido em algum lugar que Cristo era um defensor do socialismo primitivo, por exemplo. Que ele tenha tido talvez práticas semelhantes, permitiria uma analogia, mas ser adepto, pregar as ideias, desconsidera que essa corrente socialista surgiria apenas muitos séculos depois.

Não é preciso investigar problemas com fatos tão distantes. Fica ainda mais complexo quando falamos de poucas décadas. Um amigo, há poucos meses, disse que um terrorista italiano teria direito a matar todos que executou porque lutava contra o capitalismo. Foi preciso alguém tentar na hora fazê-lo acordar lembrando que já havia mecanismos democráticos e eleitorais na Itália para serem usados, não eram tempos de guerra para legitimar algo assim. Sem tempos de guerra mas também sem tempos de paz, Marta Suplicy criticou Gabeira dizendo que ele sim sequestrou alguém, Dilma não. O Brasil estava sob uma ditadura militar e o sequestro do embaixador americano, segundo interpretação do próprio, serviu para alertar o mundo sobre o que acontecia no país. Não se pode dizer, claro, que seja certo sequestrar, mas é preciso julgar os fatos segundo o contexto em que ocorreram.

Muitos tentam dar legitimidade a esse equívoco constante com o álibi dos "precursores", de quem "estava à frente do seu tempo" entre outros confetes retóricos. Que alguém perceba algo potencial em seu tempo e defenda aquela possibilidade, que séculos depois aquela possibilidade se assemelhe a certa corrente ideológica, não faz de ninguém um vidente, mas apenas um livre pensador avaliando hipóteses. A hipótese talvez não passasse de idealismo na época do pensante, mas séculos depois poderia se tornar algo sustentável.

É mais fácil jogar o olhar de hoje sobre o passado do que parar para pensar na sociedade em que os fatos se passavam.

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