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sexta-feira, 16 de abril de 2010

Cuidado com as zonas de conforto das nossas vidas

Recentemente, um professor universitário gritou numa sala de professores de uma instituição de ensino que não havia jornalista com coragem de publicar suas ideias numa reportagem. Tomei conhecimento disso e, num esforço hic Rhodus hic salta, falei com amiga de um jornal que concordou e ligou para ele. E não é que ele se recusou a dar entrevista? "Pode prejudicar meu trabalho... melhor não constar meu nome...". Quando falei com ele sobre a recusa, tive outra surpresa. Disse para ele que poderia levar suas ideias para uma audiência pública da Câmara de Vereadores. Mas respondeu: "Precisa não... eles lá já sabem de tudo o que eu iria dizer...". 

A coragem aparente do primeiro gesto se explica. Professores universitários temos a tendência a ficar à vontade no micromundo da macrozona de conforto que são as instituições de ensino. Vociferando em palestras, agitando bandeiras, porque a opinião pública está há quilômetros de nos ouvir. É o momento em que se fala para ouvintes naturais, que só estão ali por concordar ou pelo menos silenciar. O debate é área controlada, moderada e com horário definido para as ideias deixarem de ser expostas. Mas a prisão em zonas de conforto não é só nossa. Ultrapassa o homo academicus e alcança todo cidadão. Queremos, como talvez dissesse aquele professor, que os outros saibam o que pensamos e o que seja melhor para nós sem que tenhamos qualquer sinal de risco na nossa imagem pública.

Assim, o Ministério Público exigiu que a menina má da novela ficasse boazinha e que o livro de Danilo Gentili (Como se tornar o pior aluno da escola) tivesse um selo de que só poderia ser lido por maiores de 18 anos de idade. No primeiro caso, dá trabalho pensar que exista distúrbio de sociabilidade na infância, o que novelas de Manoel Carlos poderiam encarar com ótimas análises pioneiras na TV brasileira. No segundo caso, dá trabalho educar os filhos e conversar sobre livros com eles. Em ambos, é mais prático reprimir novas reflexões do que enfrentá-las pelo diálogo. Tiraria a família de sua zona de conforto, precisando encarar que o mundo não é simples, como se o filho fosse aprender a colar em provas por meio de um livro.

Mas o problema é mais profundo. Há zonas de conforto mesmo na contestação política. É muito mais prático defender a violação ao princípio jurídico da presunção de inocência do que incentivar a educação política da população. Assim, há o bizarro projeto Ficha Limpa, que já divulguei neste blog por respeito à diversidade de ideias e pelas intenções nobres, mas guardando minha rejeição. O projeto é bizarro porque parece um AI 5 da esquerda. Se não houver sentença condenatória transitada em julgado, presume-se que alguém seja inocente. Não importa se a imprensa condenou, todos têm direito a um processo para se defender. Mas é mais prático, como bem critica Edmilson Lopes, ter uma lei fazendo com que automaticamente quem tiver processo não possa se candidatar do que aceitar que fora da vontade da classe média defensora do projeto que  há cidadãos que não se importam com a corrupção alheia. Em vez de uma autocrítica sobre nossa defesa nacional da impunidade, a responsabilidade é recebida por um projeto de lei, como se leis alterassem a ética nacional, ou a falta dela. 

As nossas zonas de conforto, as representações do mundo que nos fazem sentir seguros e satisfeitos, não são necessariamente um problema. Afinal, as relações afetivas são constituídas desse modo. Mas é problemático ter preguiça de enfrentar os problemas coletivos por existir um caminho mais fácil e ideias mais simples que possam trazer respostas suficientes, mesmo que estejam longe de ser satisfatórias.

Como na proposta aristotélica entre ato e potência, se somos capazes de fazer algo de relevância coletiva e não fizermos, já teremos sonegado nossa participação na sociedade. Deixamos de nos realizar por completo. É parte da violação da ética não cumprir aqulo que somos capazes de fazer pela sociedade. Toda omissão é uma escolha. Se optamos entre alternativas, então não deixamos de agir. Logo, agimos contra quem podemos ser e o que podemos fazer. Agimos contra a sociedade em nome da segurança imediata que a preguiça, inclusive a preguiça de pensar, nos traz.

Para pensar mais sobre o assunto, vale a pena ler sobre nossa aceitação da impunidade por ser fácil no muito oportuno artigo de  Rodrigo Toledo. Para conferir e passar essa ideia adiante:
Ética em tudo: vamos dar o bom exemplo?


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