Translate

quinta-feira, 25 de março de 2010

Eli: A leitura como forma de rebeldia


Assisti a O Livro de Eli e me surpreendi. É filme com ação, mas não sobre as cenas de ação. Há, como gostam de dizer os atores americanos, "várias camadas" na história. Apesar do subtexto religioso ter me agradado muito, vou ficar com outra leitura possível, exatamente sobre o papel da leitura no filme.
.
Vou falar do fim, então é melhor assistir ao filme primeiro. 
Se ainda não assistiu vá ao cinema ou pegue em DVD nas próximas semanas e depois volta para ler o restante.

Já assistiu?
Então ok.








Se já assistiu ao filme, pode continuar.
Se bem me lembro, o curador da última biblioteca conhecida, que prende o conhecimento no que antes era o presídio mais conhecido do mundo, diz: "Vamos ensinar a todos como podem viver". Não como devem. A possibilidade de livre arbítrio está vinculada à leitura para entender o mundo. É o que permite encontrar alternativas e, entre uma página e outra, refletir sobre elas.

A máxima rebeldia estava em encontrar leitores. A grande denúncia no filme vinha depois da pergunta "você o viu lendo? Ele lê todos os dias?". Assim é a vida.

A leitura converteu-se já, não em cerca de 32, 33 anos no futuro como diria Eli, em ato de rebeldia.

No Brasil, a média de leitura é de 1,3 livro por ano, segundo a Câmara Brasileira do Livro. A maioria dos alfabetizados diz que só leem quando são obrigados a fazê-lo. O brasileiro não lê. Não é à toa aproveitar um filme sob cenário pós-apocalíptico para discutir o futuro da sociedade.

Em Alagoas, há mais de 70% de analfabetos. Se contar ainda quem sabe ler mas não lê, quem só lê forçado por cursos ou por trabalho, recomendo lenços de papel no tamanho dos que o filme "Preciosa" exige.

Com tantos que não leem, porque não sabem ou não se importariam em esquecer como se faz, é fácil lembrar Alberto Manguel. Em História da Leitura, ele diz que sempre que encontra alguém na rua com um livro que ele leu sente que fazem parte de uma comunidade em que ninguém sabe quem mais faz parte. 

Voltando à terra dos Marechais, Ricardo Cabus começou em bares e eventos culturais o Papel no Varal. Poesia literalmente em varais onde você escolhe para ler diante dos demais leitores. Wanessa Oliveira criou a Literatus, locadora de livros e ponto de encontro para um café sobre livros. Nilton Resende cria grupos de poesia como quem faz chover. O que têm em comum? O que fez a Cooperifa se tornar referência nacional em produção de literatura sob a liderança de Sérgio Vaz em São Paulo. Somos como Eli, lutando para que uma prática quase esquecida, a leitura, possa ser protegida para que possamos tentar encontrar sentido no mundo. 

Quando se leem os emails da correspondência de revistas sobre literatura, é comum ver "essa revista não pode acabar". Acontece que enquanto a bela e pouco lida EntreLivros acabava surgiam várias outras, porque quem precisa ler escreve. E quem quer partilhar a leitura escreve sobre ela para que outros com curiosidade comum se encontrem.

Para quem considerar que a juventude de hoje vive à base de "vc", "naum" no msn, veja quantos blogs de poesia existem, o cuidado com que tantos param seu dia a dia para escrever no twitter as pequenas coisas das suas vidas. Como bem dizia Eli, quando tínhamos tudo em abundância ficava difícil encontrar o que realmente tinha valor... joguemos para o presente. Iniciativas pela literatura ganham nova dimensão quando é difícil ler no país.

Livrarias são escassas. Eis Wanessa. É difícil onde falar sobre literatura. Eis Ricardo. Não há espaço para mostrar a própria produção. Eis Nilton. Quantos somos? Eis Sérgio Vaz e a Cooperifa. Somos poucos? A blogosfera e a twittosfera não são esféricas, estão longe de um fim em si mesmas.

Em todos os estados do Brasil, bienais do livro divulgam o trabalho de contadores de histórias que, quando não se restringem à tradição oral, estimulam o primeiro contato de crianças com livros. O Sesc prepara contadores durante o ano inteiro com cursos de curta duração, organizados pela Trupe Gogó da Ema. Na última bienal do livro em Maceió, foi grande a programação de atividades de contadores de histórias de todo o país.

Para tudo isso ser possível é preciso envelhecer. É preciso perceber a responsabilidade que o conhecimento traz e, como diz um ditado, que ele é como dinheiro. Se não circular perde valor. Por isso no filme o futuro não estaria com as crianças mas com os velhos. É dito assim no filme, com "old people" mesmo. São aqueles que adquirem bagagem com o que já leram para ter o que transmitir e para quem transmitir.

Mas a quem transmitir o conhecimento? Continuando no cinema, para um filme ainda não comentado aqui, como diria John Connor em Terminator:Salvation: "Se você estiver ouvindo, você faz parte da resistência". Se você lê, você faz parte da resistência.



------------------
Mais alguns exemplos da resistência:
Projeto Livro sem Fronteiras
Dicionário para cegos
Oficinas em escolas com universitários
Biblioburro
Bibliotecas em caminhões
Biblioteca de catadores
Programa Adote uma Biblioteca


Este espaço está aberto para divulgar outros focos de resistência. Conhece algum?


4 comentários:

analima disse...

Confesso. Não vi o filme. Mas não resisti a ler até ao fim. Esta ideia da leitura como acto de resistência, de rebeldia, faz muito sentido. Lembrei-me também que até junto dos mais jovens, que não são analfabetos mas que rejeitam muitas vezes a leitura através dos livros, preterindo-os a favor da internet, por exemplo, é fundamental transmitir a ideia de que todos os meios são bons mas que os livros são o meio por excelência e por isso são armas fundamentais no combate a favor do conhecimento. Felizmente cá, tal como aí, há muitas pessoas a trabalhar, extra entidades do governo que têm responsabilidades na educação, para ajudar a transmitir essa ideia.

Ellen Nívea disse...

Também não resisti, e mesmo sem ter visto o filme, li até o fim.

Tudo isso que foi dito é a pura verdade, pois os poucos jovens que lêem tornam-se alvo de piadas e ficam conhecidos como : “Nerds, Loucos, ou coisa pior...”
É interessante também notar que as livrarias estão sumindo do mapa. Até as que ficam de frente para universidades estão fechando. Porquê será?!
Precisamos urgente de uma revolução! Que não seja das máquinas, mas sim dos humanos (contrariando o exterminador do futuro).
Nós que amamos a arte de falar devemos ter a noção de que quanto menos lermos menos vocabulário teremos!

Sérgio Coutinho disse...

Ana e Ellen,

Avisar que conto o fim do filme sempre funciona (rs). Ninguém resiste. Acho que vou continuar fazendo isso. Obrigado pelos comentários.

Cheiros!

Wanessa Oliveira disse...

Sérgio, Sérgio..
Andava realmente desmotivada esses dias (quase arrasada, para ser sincera), me perguntando se - ou até onde - eu me precipitei; ou o que eu deixei de fazer ou deveria, ou poderia.. A verdade é que, antes de abrir a Literatus, milhares de pessoas me alertaram sobre a super probabilidade de 'falência' precoce.. e diziam: 'as pessoas não lêem'. Dois meses depois, ainda engatinhando, me pergunto: será que estavam certas???

Você até tem seus amigos, sua mãe, pessoas próximas a você que certamente poderiam e não hesitam em te ajudar, mas na hora de realizar um sonho, de decidir acreditar até o fim, de defender ele diariamente e lidar com os precipícios causados por ele, não tem como não se sentir só as vezes... ou 'lutando com moinhos de vento', como escreveram certa vez sobre a Literatus..rs.

Já já chega o dia do Livro (18 de abril) e os dados de analfabetismo funcional em Alagoas (73%..caiu 2% em 10 anos) mostram que são poucas as comemorações...

aaai.. espero que essas pessoas estejam erradas, que os meus temores também. Que a Literatus dê certo. Que não desistamos.


ps. não assisti o filme, mas só o que você escreveu agora já me deu uma boa vontade de procurar uns lenços..! Valeu viu??

saudades de você! beijão

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...