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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Em defesa das "descontroladas"

No último fim de semana, assisti ao filme A Troca, de Clint Eastwood, baseado em fatos reais. A protagonista, interpretada por Angelina Jolie (que um dia ainda me adotará...) foi considerada descontrolada, uma mulher que não sabia conter suas emoções nem reconhecer a importância das instituições. Por essas alegações, ela não era ouvida pela polícia de sua cidade quando afirmava que haviam trocado seu filho desaparecido por outra criança.

Alguém poderia dizer que se tratava do começo do século XX, antes do feminismo, da emancipação feminina, da revolução sexual. Contudo, nosso reconhecimento à participação feminina ainda esbarra com frequência em preconceitos referentes à manifestação de emoções. Como dizia uma personagem para a protagonista, se sorriem muito não conseguem entender a realidade; se choram, são depressivas. O que importa, segundo a personagem, é afirmar que não são capazes de se expressar. 

Hoje de manhã, perto de onde moro, havia uma manifestação de policiais civis contra o governador do estado. Faziam muito barulho, interrompiam o trânsito, bloqueavam o trajeto pela praia, tudo por que do outro lado do trecho da praia que ocuparam estava o prédio onde mora o governador. Foram à sua casa reclamar questões de trabalho. Uma senhora sensata atravessou a rua e protestou que estavam perturbando pessoas que nada tinham que ver com aquilo, tirando o sossego de uma área residencial. Quando interrogado por jornalistas, um dos líderes da barulhenta e inócua manifestação afirmou que "ela estava descontrolada". Não afirmou isso devido a ela ter rasgado uma das faixas que atrapalhavam o trânsito, mas pelo protesto solitário dela contra a balbúrdia de quem deveria cuidar da segurança pública. Como geravam insegurança no trânsito e no passeio público, restava apenas a iniciativa de cidadãos para acabar com a cena. Só rasgando uma das faixas para ser ouvida.

Afastando um pouco do tema central, isso me fez lembrar como mulheres com opinião muitas vezes são chamadas de "mal amadas", como se um homem (e alternativas homoafetivas são ignoradas no imaginário misógino) fosse a solução para todo mal humor.

Emparedam-se mulheres devido a suas opiniões como um dia Sóflocles descrevia a punição a Antígona por ter expressado o que pensava.

1 comentários:

analima disse...

Não me considero nada "descontrolada". Mas o meu lado feminino gostou muito desta reflexão :)

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