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sábado, 2 de janeiro de 2010

Lula, o filho de quem?


Assisti Lula, o Filho do Brasil. Para falar do filme, antes algumas ressalvas. Deve ser muito difícil fazer um filme sobre a vida de alguém vivo, mais difícil ainda se fez tanto em vida. Ainda pior se este alguém for Presidente da República. Contudo, o diretor disse que Lula teria dado bastante liberdade, pedindo apenas que não falassem dos seus mandatos como Presidente, pois não achava justo isso ocorrer antes do mandato terminar. Por outro lado, o livro é baseado numa biografia de Lula, homônima ao filme e escrita por Denise Paraná. Como bem ressalta Eliane Brum, o homem foi substituído por um mito. Contudo, um mito incompleto.

Não há nada controverso no filme sobre a vida do Lula, como se passo-a-passo ele estivesse predestinado para o que fez na vida. Não há opiniões incômodas, os discursos são tímidos, exceto por uma insistência do filme em dizer que ninguém ali é comunista. Do mesmo modo, parece que a direção do sindicato eram o irmão do Lula, Lula e uns rabugentos que só reclamavam sem nome. Todos que acompanharam a vida sindical do Lula e estariam ao seu lado mas que respondem a processos criminais foram omitidos.

Se alguém assistir entendendo que é a perspectiva de Dona Lindu, mãe de Lula, então faz sentido cronológico. Também passa a fazer sentido parte do que não é mostrado. Se a personagem é grande no filme, talvez o filme fosse melhor se ela fosse ainda maior. Pelo que o Presidente costuma dizer, ela merece.

Lula é ambíguo no livro (que agora quero ainda mais ler), como qualquer ser humano, ainda mais se esteve envolvido em momentos tão delicados de tomadas de decisão na vida. Ele é raso no filme. Muito bem interpretado, mas nada contraditório.

No fim, há singelo texto sobre os passos pós sindicalismo do Lula. Pois para o filme Lula foi direto do sindicato dos metalúrgicos à Presidência da República. Não há PT, CUT, Diretas Já no filme nem mesmo nesse momento.


Se os fatos falam por si, o filme é interessante porque a vida do Presidente é fantástica por si. É fácil que se torne um filme deslumbrado. O homem impressiona. Mais impressionante é que o filme lide com fatos fortes mas não empolgue. O cuidado em não mostrar ideias deixou o enredo sem vida na metade sobre as lutas sindicais.


Fazer um filme sem ideologia sobre um politico é uma falha inaceitável. O filme mostra o Lulinha Paz e Amor, como se declarou o Presidente na campanha presidencial do segundo mandato, como se ele existisse desde sempre. A perspectiva sobre ele hoje contaminou a investigação do passado. Não se trata de exigir um documentário, que como tudo feito por nós também teria a perspectiva de alguém. É preciso apenas não se omitir.

Atualizando horas depois: A editora publicou uma versão reduzida da biografia de Denise Paraná, sem certas situações polêmicas que Eliane Brum menciona em seu artigo. Está com o cartaz do filme como capa. Procurem a edição maior, com Lula de terno na capa. É a que eu pretendo ler. Há compromisso com a verdade em ambas e Denise é profissional ética, mas para ler além do filme é melhor a "versão extendida".



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