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sábado, 28 de novembro de 2009

Novo shopping, velhos problemas

Já dizia o mestre Mano Brown, periferia é periferia em qualquer lugar. Estamos vivenciando isso em Maceió.

Bastou abrir na última semana um shopping center num bairro de periferia que começaram os boatos. Suposto arrastão no primeiro dia (confundiram multidão e arrastão), gente "suspeita" (racismo barato), quadrilha de outro shopping em ação (nada foi visto). Comprovado até agora, só um furto de uma bolsa por distração admitida pela vítima. E a bolsa já foi encontrada. Além disso, ocorreu hoje uma tentativa de furto numa loja. Outros ocorrerão. Qualquer shopping center brasileiro, qualquer centro de cidade vivencia gente tentando pegar mercadorias sem ser visto. Em supermercados e lojas de conveniência, conta-se como certo um percentual de mercadorias perdidas assim.

É evidente que em empreendimentos desse porte crimes possam surgir enquanto os seguranças estão conhecendo terreno. Há bairros enormes ao redor e shopping está num trevo. As chances de problemas de fato existem e ocorrerão diversos deles. Porém, o que presenciei foi uma overdose de agentes cuidando de cada 10 passos, muitos sem uniforme para não serem reconhecidos (reconheci, hehehe).

É difícil até ficar parado ali dentro, pressuposto para "estudar movimento" para golpes. Um conhecido com deficiência (uma perna menor que a outra) e morador do bairro parou para descansar encostando-se numa parede enquanto a esposa e os filhos entravam numa loja. Um segurança tentou expulsá-lo. Foi preciso se identificar como deficiente com carteirinha (as pernas não bastaram) e apresentar a família para o segurança deixá-lo continuar dentro. Certas marcas e modelos de roupas e a cor da pele são combinação explosiva para a segurança pública e particular escolher supostos meliantes.

Dica para quem quiser visitar: Não há, ainda, bancos para consumidores se sentar ao redor de lá e é um imenso corredor único. Cansativo para idosos, gestantes, quem tem deficiência e sedentários em geral.

Já ouvi várias vezes: "Vai quebrar, ninguém ali tem dinheiro". Benedito Bentes é o segundo bairro mais populoso de Maceió e, com o primeiro, Jacintinho, são exemplos da nova classe média brasileira na cidade. Não é raro encontrar famílias com renda média acima de 2.000 reais, lan houses em quase todas as ruas, escolas particulares, academias de ginástica, mas Maceió é cidade voltada para o mar, inclusive nas consciências. Não se olha muito para a área não banhada pelo Atlântico.

Condomínios, faculdades, shoppings enxergaram o potencial econômico da região e estão investindo. Os boatos são forma simples e comum dos preconceituosos tentarem se adaptar ou reagir, testando limites da verossimilhança.

Não se trata mais de ouvir a voz das ruas, mas de gente com dinheiro para gastar e pele escura para não ser vista. O mercado está exercendo um papel transgressor contra estigmas históricos.



Atualização em 30.11.2009: Já puseram bancos, largos e em grande número.



3 comentários:

anartam disse...

Oi, Sérgio! Como disse no twitter, acredito que haja dois tipos de estereótipos: o daqueles que imaginam, por se tratar de um bairro na periferia, que as pessoas são mal-encaradas e perigosas, resvalando em preconceitos e discriminações; e o daqueles que, adeptos do discurso politicamente correto, negam os riscos maiores de violência dos bairros periféricos.
Penso que a criminalidade, aqui em Maceió, esteja muito concentrada nos bairros periféricos, mesmo (os crimes de colarinho branco concentram-se às margens do Atlântico). Um mapa de ocorrência de crimes demonstraria isso, o que justificaria a preocupação da administração do shopping. Daí confundir os consumidores com criminosos, como fazem seguranças mal preparados é um pulo.
Outra questão interessante é ver até que ponto a chegada de um novo shopping center (imagine quando o cinema se instalar) levará à melhoria da segurança pública na região.
Ana Rosa

Sérgio Coutinho disse...

Oi, Ana! Aqui temos muito mais e melhor espaço para nos expressarmos do que no twitter, por isso convidei para dar uma passada para conferir o texto.

Gostei da tua análise. Há esse mapa, feito pela secretaria de defesa social. De fato, a criminalidade concentra-se em 4 bairros na cidade. Contudo, há algo mais alarmante: 17% dos jovens disseram não ter qualquer expectativa de emprego nesses bairros. Imagine então empreendimentos (pois além do shopping logo haverá supermercado por perto, já estão construindo condomínios) que geram milhares de empregos e (no caso do shopping pelo menos) preferem moradores da região, que impacto podem ter. Sem contar ter uma faculdade a preços populares funcionando na entrada do shopping.

É uma região com escassez de equipamentos culturais. Agora terá cinemas e o espaço iluminado, limpo e seguro para encontros de amigos e de casais são mudança sobre oportunidades de lazer.

É mudança cultural de impacto econômico e sobre a segurança. O que a polícia não consegue fazer empreendimentos com segurança particular precisam fazer para preservar o patrimônio dos empresários que ali investiram.

Como toda mudança cultural, sentirão impacto apenas na próxima geração. Nós, teremos apenas os boatos impedindo a convivência, como é típico da relação com a periferia.

Meus amigos na esquerda me degolariam por dizer isso, mas é o papel civilizador do mercado.

Visite aqui mais vezes! Abraço!

Adrualdo Catão disse...

Pois é, meu amigo,

quando digo que mercado livre é pressuposto da democracia, muitos fecham a cara heheheh

Abraços!

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