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sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Sobre Vale-Cultura

Um projeto pré-eleitoral de fácil aceitação à primeira vista está prestes a ser aprovado no Congresso, o Vale-Cultura.

Luiz Antônio Giron publicou interessante crítica a esse novo bolsa família. Citando Pereio, se for em dinheiro vira vale-pinga. Se for em cartão, como propõe o governo federal, emitirá crédito de até R$ 50,00 para os trabalhadores brasileiros converterem em acesso a aparelhos culturais (museus, cinema, teatro).

Se hipocrisia matasse, os defensores do vale-cultura já estariam enterrados. 90% das cidades brasileiras não têm cinema. Cinemas e teatros têm sido comprados por igrejas. Mesmo espaço para shows populares é algo raro na maioria dos municípios. Emitir bolsa-família cultural é desrespeito ao trabalhador brasileiro.

Programas como o Catraca Livre, de São Paulo, são interessantes por agrupar num só espaço virtual todos os eventos gratuitos da cidade. Infelizmente, são raras as capitais brasileiras com um décimo dos aparelhos culturais de São Paulo. Seu idealizador, Gilberto Dimenstein, critica o Vale-Cultura por ser voltado a trabalhadores. Segundo Dimenstein, um programa parecido deveria ser voltado a crianças e adolescentes, para que criassem o hábito de usufruir dos aparelhos culturais. Sendo voltado à população economicamente ativa, aos adultos, atingiria quem já não tem hábito de contato com aparelhos culturais. Teria que superar décadas de abandono de políticas públicas culturais nas vidas desses cidadãos.

É grande o número de museus brasileiros que não cobram por visita. Não precisariam de vale-cultura. Contudo, também é grande o número de museus fechados por falta de investimentos na conservação da sua infra-estrutura e do seu acervo. Teatros históricos também sofrem pela má conservação. Se aparelhos culturais estão mal, o vale-cultura vira apenas peça de propaganda. Uma peça cara e imoral.

Praças são gratuitas. Se tiverem coretos, as bandas filarmônicas do interior poderão se apresentar em lugar fixo. Se não tiverem, as filarmônicas poderão se apresentar nas ruas, como fazem constantemente. Se grande parte da população brasileira nunca esteve numa exposição de quadros, seria mais interessante examinar quantos lembram da expressão cultural de suas cidades, por meio de cantos de lavadeira, cirandas, fanfarras. Todos grupos que podem se apresentar em praças. Mas praças andam abandonadas por todos os lados.

O vale-cultura não visa reduzir o maior dos problemas na formação cultural brasileira, que é a preservação da memória coletiva de quem nós somos. Indígenas definham com fome e suas práticas culturais morrem junto. Quilombolas, também. E o que dizer da produção cultural da periferia das metrópoles, desabrigada de espaços onde possam mostrar o que pensam? Como bem lembra Giron, beneficiará de São Paulo para baixo. Ele esquece da produção em cinema e teatro de Recife, Salvador, Fortaleza. Mas está desculpado por ser vítima da miopia cultural de muitos críticos de arte do Sul e Sudeste. Seu argumento se mantém e concordo: de fato, são raras as cidades do Norte e do Nordeste que verão utilidade ao cartãozinho do governo.

Não basta pensar que a ideia seja boa. Como diz o dito popular, de boas intenções, o Congresso está cheio.



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