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segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Prudência com Olimpíadas brasileiras



Ok. O vídeo do Fernando Meirelles é lindo. O Rio de Janeiro é lindo. É lindo ter Olimpíadas e Copa do Mundo no Brasil. Pretendo ir para algum dos eventos no Rio. Vibrei junto, torci junto, pela oportunidade única para imensos investimentos no espaço urbano e grandes debates sobre a vida em grandes cidades, que sempre acompanham a instalação de Olimpíadas.

Será uma oportunidade única para viabilizar projetos efetivados com calma durante anos para melhorar a sustentabilidade, a acessibilidade, enfim, a vida digna no espaço urbano brasileiro. Sem esquecer de que é a primeira Olimpíada na América do Sul inteira, o que em termos diplomáticos tem significado para o país.

Porém, cautela na hora de pensar no assunto não faz mal a ninguém. Afinal, apesar das vantagens à sociedade, estamos falando no Brasil.

Lula teve em seus discursos na sexta-feira um forte investimento na emoção. Falou bonito apesar da concordância sofrível. Contudo, nada justifica o quanto ele reforça o descaso com a educação. Não me refiro aos erros de português, presentes a cada frase das entrevistas. Mais uma vez ele disse que seu primeiro diploma foi o de Presidente da República. Como se não tivesse recebido um diploma do curso profissionalizante de torneiro mecânico, emitido pelo Senai. Para alguém tão vaidoso com a própria biografia, não pode ser visto como um gesto inocente.

Mas vamos diretamente às Olimpíadas. O governo Lula foi especialista nos últimos anos em cortinas de fumaça. Quem seria contra o "Fome Zero"? Até hoje não se sabe o que a expressão queria dizer, se algum dia teve significado, mas todos os investimentos eram associados a essa expressão de uma retórica mágica. Depois, foi assim com o PAC, com o Espetáculo do Crescimento, entre outras expressões incontestáveis.

O que dizer, então, de toda e qualquer obra que seja associada aos jogos, sejam eles da Copa ou das Olimpíadas? A farra das empreeiteiras será fantástica e qualquer fiscalização será vista como coisa de quem não quer ver o Brasil crescer, como sempre diz Lula diante de quaisquer críticas.

Sakamoto alertou em seu blog ontem sobre outro grande problema. Apesar de ser evidente que esses investimentos gerarão grande número de empregos durante anos, é o momento ideal para começarem a falar em redução de direitos trabalhisas para gerar empregos para os jogos. Não se trata da CLT não precisar de mudanças, que sem dúvidas precisa, mas seria oportunismo perigoso fazer reformas de grande porte na legislação usando esses eventos como álibi.

Como bem lembrou Juka Kfouri em seu podcast, o Brasil não cumpriu as promessas sobre infra-estrutura do Rio para o Pan e repete as mesmas promessas para as Olimpíadas: despoluição da Baía de Guanabara, ampliação das linhas ferroviárias, investimentos em segurança pública... Por mais bonito que tenha sido o momento do anúncio da escolha do Rio, diz Juca, "foi uma vitória da ficção".

Uma outra questão grave é que Lula, diferente de Zelaya, Chávez e outros candidatos a ditadores da América Latina, não precisará de golpes para se perpetuar no Poder. Até 2016 é incontestável que ganhará quaisquer eleições, apenas não estará à frente do mandato. Para quem conta com 80% de popularidade e está sem oposição há dois mandatos, é perigoso para o já frágil jogo democrático brasileiro. Aprova o que bem entender. Se é uma medida que garantirá a conclusão das obras de programas como o Minha Casa, Minha Vida entre outros cujas obras virão com as próximas eleições, tem o obstáculo de evitar sumariamente o choque político de ideias. Pelo menos não será necessário gastar com Mensalões ou algo parecido.

Com a nomeação recente de seu advogado no STF (indicado sem qualquer preocupação presidencial com formação acadêmica, de novo descaso com educação) e mais uma vaga para sua indicação em 2010, sua maioria nos três poderes já será, como ele gosta de dizer, algo que nunca antes na história do Brasil foi visto.

E não esqueçamos que o maior investimento privado no cinema nacional está na cinebiografia do Lula, a ser lançada, vejam só, no ano das eleições, 2010, com ampla campanha de exibição em sindicatos para compensar a ausência de cinemas em muitas cidades brasileiras (90% delas para ser preciso).

É uma oportunidade para grandes mudanças, mas estão todas elas de modo unilateral nas mãos do presidente.

Poder sem freios sempre é perigoso.



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