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segunda-feira, 12 de outubro de 2009

O Menino do Pijama. E as Listras.


ATENÇÃO. EU CONTO O FIM DO FILME. SE NÃO QUISER SABER ANTES DE ASSISTIR, JÁ AVISEI...



Decidi comemorar o começo do Dia das Crianças com um filme com crianças. Escolhi O menino do pijama listrado por sugestão de amigos. Decepção terrível.

É descoberta do mundo real, no caso do Holocausto nazista, pela perspectiva de uma criança filha de um comandante de campo de concentração. O garoto tem como único amigo um menino judeu com quem conversa por meio da cerca de um campo de concentração nos fundos da sua casa. Se apagar os últimos quinze minutos de sua memória, será um filme muito bonito, comparável aos bons romances de formação, com uma criança sutilmente amadurecendo.

Porém, há uma tendência no cinema americano que é crudelíssima. Se o Exército americano não salvar o mundo devolvendo tudo a como estava (comentei esse aspecto antes), se houver qualquer chance de mudar a realidade, melhorar o mundo, fazer justiça, o mocinho morrerá no final. Se esse mocinho for a voz da razão, terá morte cruel. Pode relembrar os filmes que assistiu nos últimos anos para perceber o padrão.

No caso do filme, a irmã do garoto protagonista apenas diz o que todos querem ouvir, portanto vive. A mãe consegue levar os filhos para longe da realidade, portanto vive (o que a princípio a incomoda não é a existência dos campos, mas eles estarem perdo de sua casa). O pai exibe a outros nazistas filme para os cinemas alemães mostrando que os campos eram lugares felizes (aí uma mensagem interessante no filme, levantando a dúvida sobre até quanto os cidadãos alemães de fato sabiam o que se passava no interior, onde ficavam os campos), portanto vive.

O garoto que enfrenta as diferenças culturais impostas pelos adultos e não apenas alimenta mas entra no campo de concentração para ajudar o amiguinho judeu... pois é. Tudo que o protagonista poderia aprender com a experiência se dissolve. Toda sua iniciativa, perde a importância. Ridiculamente morto para satisfazer um impulso ideológico dos estúdios que parecem dizer: "Está incomodado? Fica quieto que será um herói morto". Ainda bem que não encontrei quem tenha assistido e pensado assim. Mas os amigos se indignaram com quantos lamentaram apenas a morte do garotinho filho de nazistas e nada mais.

Se fosse apenas um filme, ok. Mas toda a ficção nos filmes estadunidenses é assim construída. Salvo, claro, um Tarantino ou um Eastwood que conseguem andar com passos próprios sob influências diversas. Mas se mantém as tendências mais autoritárias do mercado de cinema. Acomode-se ou morra. Obedeça ou morra.

Se tive pena do garoto que morreu? Burrice mata. Entrou no campo de concentração já tendo percebido antes que estava longe de ser um lugar agradável, desobedeceu à família, não pediu ajuda a ninguém. Tive, de fato, pena de todos que estavam no forno para morrer juntos. Condição absolutamente desumana. Absolutamente. Afinal, mesmo quem jogava pólvora por um buraco no teto estava continuamente com uma máscara e todo o corpo coberto, perdendo assim seu aspecto humano. Tanto quanto aqueles que sem roupa aguardavam o fogo. Não há lugar para humanidade no filme.

É um relato melancólico desde o começo que termina com desencanto pleno sobre o mundo. E eu assistindo às duas da manhã de um Dia das Crianças.



4 comentários:

Família disse...

Gostei do filme e, como já comentei, acho que essa história de “quem quer mudar o mundo morre” é mais realidade do que ideologia no mundo em que vivemos. No geral, essas partículas modificadoras – que são pessoas – vão embora antes de verem a “coisa” acontecer. E como um prévio prêmio de consolação, costumam incluir nos discursos, coisas do tipo: “são para as futuras gerações”.

Pois bem, acredito que mudança provém – antes de dar o primeiro passo – de uma nova mentalidade. Ao final do filme, o desespero dos familiares (ainda que ligado ao egoísmo da perda de um ente querido apenas), certamente, serviu de impulso para um novo “pensar” o mundo.

É minha interpretação. Feliz e cor-de-rosa.

Abraço.
Isolda.

Sérgio Coutinho disse...

Faz sentido. Pelo menos achou sentido na morte do garoto chato. Bem pensado.

Abraço!

Leonardo Reis disse...

Que o filme não se tratava de "um filme de crianças" e, portanto, sem nenhuma ligação com o "dia das crianças" acho que qualquer um percebia - bastava ver o trailer. Não entendi qual foi a relação de uma coisa com a outra.

O filme é sobre o nazismo e nada mais do que isso. Acho que cumpriu bem o que prometeu. O problema foi de quem achou que veria uma linda estória infantil. Talvez não tenha idéia da realidade que foi o período nazista. Todos os filmes do gênero possuem seu aspecto trágico.

A morte do menino loirinho e bonitinho? Se é aceitável que milhões de judeus morram, (não há como fugir da história)porque um garotinho alemão não poderia morrer, surpreendendo a quem o assiste?

Sérgio Coutinho disse...

É só reler o texto. A única relação foi que assisti na noite do dia das crianças. Só isso. Mencionei na época para justificar escrever sobre o filme.

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