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sábado, 24 de outubro de 2009

O Haiti é aqui... mas o Distrito 9 também

Assisti hoje ao filme Distrito 9. Fantástico. Pela primeira vez, pude ver um filme de ficção científica que reflete sobre a favelização do mundo.

Em poucas palavras: no filme, uma nave espacial vem à Terra e fica flutuando sobre Joanesburgo, na África do Sul. Helicópteros da organização equivalente à ONU (bobagem não usarem a sigla ONU) vão até a nave e resgatam exilados alienígenas nada simpaticamente apelidados de "Camarões" devido à sua aparência. Esses estrangeiros, por terem hábitos e aparência muito diferentes dos humanos, são isolados num gueto, o Distrito 9 que dá nome ao filme. A ação começa a se desenrolar quando os alienígenas, porque ainda incomodam os humanos, serão despejados pelas forças armadas para outro gueto, de piores instalações e mais longe da cidade.

Pelourinho, Jaraguá, Brasilia Teimosa, guetos diversos pelo mundo, todos têm uma metáfora riquíssima nesse filme sobre como a periferia vai ficando cada vez mais distante. Observemos os famosos morros cariocas. Encheram nossos olhos com notícias apenas quando começaram a ser encontradas armas. Até então, era plenamente aceitável jogar amplo contingente da população em qualquer lugar desde que fosse bem longe. Em Maceió, temos fenômeno ainda mais cruel: as favelas são, em grande parte, subterrâneas, abaixo do nível do mar, as chamadas "Grotas". Ótimas para desova de corpos do alto de pontes durante as madrugadas e para alagar durante as chuvas.

A promessa de transferência por razões humanitárias no filme corresponde àquela repetida história governamental de prometer instalações provisórias. O Distrito 9, gigantesco terreno abandonado, "hospeda" os alienígenas "temporariamente" por duas décadas.

As discussões sobre controle forçado de natalidade, dificuldade para lidar com diferenças culturais (são tratados no filme como criminosos mesmo as autoridades sabendo que no planeta de origem não reconheciam o conceito de propriedade privada), revistas aleatórias a casas, drogas, contrabando de armas, sobram discussões próximas de qualquer morador de qualquer cidade da periferia do mundo. E o mundo cada vez mais é uma imensa periferia de si mesmo. E como em toda periferia, falta visibilidade no asfalto sobre o que lá acontece. É tamanha que boa parte do filme é com os aliens não sendo ouvidos, suas falas confundidas com grunhidos pela mídia e pelas autoridades. Sem contar, por tabela, por nós mesmos.

Segundo Mike Davis em Planeta Favela, mais de um bilhão de pessoas vivem hoje em favelas. produzidas em série por iniciativas econômicas por parte das políticas públicas que afastam indesejáveis do olhar da classe média. Livro indispensável para analisar a favelização do mundo. Filme imperdível para nos vermos nos olhos assustados de cada
"camarão".






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