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segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Existe racismo no Brasil

Não defendo o Estatuto da Raça. A perspectiva racista de boa parte da população, desqualificando etnicamente os indígenas e de acordo com a quantidade de melanina quem for negro, não justifica um conselho racial definindo quem é ou não negro.

Além disso, é patético obrigar os partidos políticos a ter reserva de vagas nas eleições para candidatos negros. Isso não garantirá maior representatividade dos movimentos negros. Ninguém nasce já militante tão somente por ser objeto de defesa de certo movimento. Brancos são membros do movimento negro também. Para esgotar esse aspecto do Estatuto: não é democrático exigir por lei a representatividade de certa ideologia nas eleições, caso o objetivo seja representatividade (forçada) do movimento negro.

O Estatuto da Raça é mais um exemplo no Brasil de lei feita sem a consulta necessária dos movimentos sociais relacionados, de modo amplo. Engavetaram o Estatuto da Pessoa com Deficiência no Congresso devido aos erros do projeto, apenas percebidos quando, à beira da votação, os movimentos sociais respectivos protestaram contra a votação do projeto com aquele texto.

Contudo, existe racismo no Brasil. A despeito de sermos um país miscigenado, quem já viu o momento em que a polícia para pessoas na rua para revista perceberá a cor da pele. Jogadores de futebol já relataram diversas vezes que foram parados na rua por suspeita de roubo do próprio carro, por serem negros. A mãe do Ronaldo foi obrigada por um vizinho a andar no elevador de serviço do prédio do filho, por ser negra. A propósito, não sendo elevador de carga mas de empregados, sendo este o único país do mundo que tem esse tipo de elevador em prédios residenciais, já é uma forma gritante de preconceito.

A menina negra sabe que não está no mundo quando lê muitas das revistas de moda e quase todas as revistas infantis. É difícil encontrar apresentadores de TV negros, principalmente na TV aberta, salvo pastores neopentecostais que aparecem aos montes. Em comédias, costumam ser intérpretes dos personagens mais caricatos, perdendo apenas para o exagero de quem interpreta personagens homossexuais.

Já acompanhei por diversas vezes para que lado olham seguranças de shopping centers e de supermercados. Todos sabemos a cor predominante entre presos no país.

Contudo, cotas, seja nas universidades seja no mercado de trabalho seja nas eleições, não premiam, respectivamente, o empenho, a eficiência nem a representatividade. Como ocorre com tantas outras leis no Brasil, bastaria aplicar nossas leis contra discriminação e fomentar o ensino de direitos humanos nas escolas e universidades. Parece simplificar, mas onde têm sido cumpridas essas providências tem sido possível enfrentar esse problema com a devida prudência.

Se a ideia de raça apenas aparece no nosso cotidiano por meio de relações de opressão, não é preciso criar políticas públicas raciais para combater a discriminação. É preciso combater a submissão de grupos étnicos, o que não precisa de critérios raciais para ser feito. Nossa Constituição rejeita qualquer forma de discriminação. A legislação contra discriminação brasileira repete essa generalidade, que adiante na Constituição será reforçada pelo respeito ao nosso patrimônio cultural, que é plural na sua formação.

Algumas reportagens relacionadas, tiradas de Inclusive:

Febraban confessa discriminação de negros nos bancos

Negro é discriminado no mercado de trabalho, afirmam especialistas

Juíza baiana escreve livro para fazer desabafo sobre preconceito racial

Racismo à brasileira

É sempre o negro o delinquente

Racismo e baixa auto estima levam cotistas a se esconder



3 comentários:

Mário disse...

Demétrio Magnoli fala sobre racismo e racialismo:

http://www.imil.org.br/milleniumtv/demetrio-magnoli-no-painel-liberdade-de-etnias-parte-1/

Adrualdo Catão disse...

Perfeito Serginho.

Liga o foda-se disse...

Bom, a politica de cotas funcionou nos EUA, lógico que não é perfeita, mas eles parecem a frente, considerando que nos anos 60 negros nem usavam o mesmo banheiro que os brancos (ouvi isso numa entrevista dada por Ray Charles).
Aqui no Brasil o que realmente limita o poder de luta e conquistas dos movimentos negros, foi o branqueamento que vem do paternalismo português, passando por idéias nacionalistas da decada de 30 (um pseudonazismo tupiniquim), cresci ouvindo expressões do tipo: "Este bebê é tão bonito, branquinho", detalhe dito por um preto. E aqui em Maceió cidade a qual moro a pouco tempo me enoja ver empregadas negras semi-escravisadas cuidando dos filhos dos brancos. Teria sido pior no passado um apartheid ou uma ku-klux-klan por aqui, mas hoje saberiamos contra quem lutar e quem está de que lado.
Os brancos mostram o Martin Luther King como um exmplo de luta mas acho que a contribuição mais valiosa evolução das relações raciais nos EUA com certeza foram pessoas como MalcomX, e como ele disse:"No negro leaders have fought for civil rights, they have begged for civil rights. And as long as you beg another man to set you free, you'll never be free. Freedom is something you have to do for yourself" (Nenhum lider negro tem lutado por direitos civis, eles tem apenas implorado por direitos civis, E enquanto você implorar a outro homem para ser livre, você nunca será. Liberdade é algo que você tem que conseguir por si mesmo - http://www.youtube.com/watch?v=f2S3ShBexMs)
No fim do video o reporter ainda pergunta qual seria o preço dessa liberdade, e ele completa:"a morte".
Não é preciso ser doutor e com um mínimo de conhecimento histórico se percebe que ninguem cede poder se não for na pressão.

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