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sábado, 15 de agosto de 2009

O que é que a Marina tem?

Precisamos separar bem as coisas. Admirar a biografia de Marina Silva não a qualifica como candidata a presidenta. Apesar da imagem da pessoa talvez bastar na perspectiva pós-moderna, é preciso procurar na ação política até agora o que pode significar a candidatura. É educada, heroína ambientalista, ética, mas (tirando a educação e pondo simpatia aos olhos do povo; sindicalista em vez de ambientalista), até que ponto algo análogo não surgia com a imagem de Lula?

O PV é aliado do governo Lula. Como micro PMDB, é aliado de quem tiver poder em cada estado. Se Sarney gostou da ideia, sou contra.

Carlos Tautz escreveu ótima reflexão no blog do Noblat, "Marina candidata é factóide". Entre os problemas para pensar em Marina como presidenta, está a sua gestão como ministra. Assim ele afirma:

1. Como Ministra do Meio Ambiente, Marina nunca admitiu o óbvio: as usinas Jirau e Santo Antônio, que estão barrando o rio Madeira (RO), são inviáveis do ponto de vista legal e ecológico e dispensáveis do ponto de vista energético. São caríssimas e jogam o BNDES, seu principal financiador, em um enorme risco político. Contra Dilma e Lula, Marina apenas defendeu o rito legal para concessão das licenças ambientais, que acabaram sendo emitidas após a presidência do Ibama ter desconsiderado a posição em contrário dos técnicos do próprio órgão. A ex-Ministra nunca abordou publicamente os problemas estruturais dos projetos nem os danos que eles já estão causando à toda bacia do Madeira e aos milhares de ribeirinhos que ali residem há décadas;

2. Antes uma fervorosa opositora da transposição do rio São Francisco, obra com a qual Lula quer marcar seu bimandato, Marina passou a defender a obra faraônica em público, mesmo na presença de ambientalistas e membros dos movimentos sociais que em tese seriam seus aliados na luta contra a o desvio das águas;

3. Finda sua passagem pelo governo, em 2008, passou a considerar tecnicamente possível a convivência entre soja transgênica e não transgênica, o que contraria as ponderações sobre a mais absoluta incerteza científica quanto à segurança de commodities geneticamente modificadas. Como senadora, ela própria usou esses argumentos no Projeto de Lei 216/1999, de sua autoria, que propõe cinco anos de moratória para os transgênicos no Brasil.


Não há, portanto, apesar de sua história em defesa dos seringueiros, da imagem associada a Chico Mendes, reivindicações concretas que sejam (suprema ironia ambientalista) sustentáveis.

Marina é formada em História mas defende que o Criacionismo seja ensinado nas escolas. É o mesmo que rasgar o diploma. Como cientista social, não voto em quem não leva a Ciência a sério. E ninguém diga que é por ser evangélica que ela defende essa tese absurda. Se é política num Estado laico, pode afirmar que crê no que quiser, mas para escolas o currículo precisa ensinar Ciência. Sobram evangélicos esclarecidos no mundo.

A reportagem abaixo abre outra questão sobre a fragilidade da candidatura:

PT do Acre promete a Lula que Marina não baterá em Dilma

Marina continua no PT. Se for ao PV, será com ideias, estratégias, aliados que fez no PT. Entre PT genérico e o original que tem mais tempo de TV e apoio há meses do presidente da república, não é difícil imaginar onde está a vantagem.

É bom por que balança a eleição presidencial? Balança mesmo? Dilma conta com os votos do Bolsa Família e do Minha Casa, Minha Vida. José Serra conseguirá contestar esses dois programas sociais? O que Marina Silva terá para mostrar como projeto para a sociedade brasileira que seja tão distinto de suas décadas no PT?

Esse argumento de desequilibrar eleições já foi usado até quando Silvio Santos brincou de se candidatar a presidente e a imprensa seguiu a piada como verdade. Silvio riu por último.

Marina divide opiniões mesmo entre movimentos sociais. Sem contar que boa parte dos movimentos e sindicatos que têm poder político no país fazem o que Lula ordenar. Senão ele atrasa as mesadas.

Enfim, espero que o "debate" sobre a candidatura de Marina perca logo o fôlego. Tem tudo para ser nova Heloísa Helena na candidatura. E votei em Heloísa. 12% de intenções de voto enquanto aparecia como dissenso político até que a campanha na TV começou e passou a 6%. Nada de tão distinto havia para ser dito por ela. No que Marina se distingue, não me convence.

1 comentários:

Rogério Brandão de Faria disse...

Amigo Sérgio, concordo com o que disse. Contudo, há que se observar que a possibilidade de Marina Silva sair candidata deu uma movimentada no tabuleiro eleitoral, que até então estava bipartido entre Dilma e Serra. Acredito que esta divisão entre PT e PSDB é muito ruim para o importante debate que precisamos travar para que nosso país tenha alguma perspectiva de futuro um pouco diferente do nosso presente. Apesar de saber também que apenas "movimentação de tabuleiro" não significa muita coisa. Espero que novos candidatos se apresentem, porque no jeito que está agente sabe como vai ficar.
Grande Abraço
Rogério

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