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terça-feira, 14 de julho de 2009

Uma batalha para o movimento estudantil

Nos últimos meses, o movimento estudantil apoiou greves de funcionários e professores, ocupou reitorias, mas poderia prestar mais atenção para onde está mais de 80% do corpo discente do ensino superior brasileiro: as faculdades particulares.

Não me refiro a batalhas contra as faculdades. Grande parte dos eventuais deslizes mais graves que elas cometam podem ser bem resolvidos com mínimo conhecimento do Código de Defesa do Consumidor e das resoluções do Ministério da Educação. É preciso estudar esse marco legal para fazer parte do movimento com mínimo planejamento das lutas.

Acontece que o próprio corpo discente de muitas faculdades particulares pode estar ameaçado de deixar de existir. Não é exagero. Basta pensar nos estudantes que moram no interior de qualquer estado do país e estudam em cidade diversa daquela onde moram. Muito além da velha questão do cartão de passe para o uso de transportes públicos, esses estudantes se deslocam por meio de ônibus fretados por prefeituras ou por eles mesmos. Numa cidade do interior de Alagoas, o dono do ônibus decidiu simplesmente não levar os universitários no próximo semestre letivo. E a prefeitura não fornecerá mais transporte. A evasão estudantil deve se tornar significativa. Não tem FIES nem PROUNI que dê jeito. Para dar uma ideia da dimensão do problema, apenas de União dos Palmares são aproximadamente 400 estudantes nessa situação.

O movimento estudantil precisa ter a diversidade tática que os sindicatos também precisam aprender a ter. Seu contingente, para ser bem representado, precisa ser visto em toda sua diversidade. Estudantes que estão em segunda graduação, que trabalham, que têm filhos, têm nessas características elementos em que pensam todos os dias quando se deslocam para as respectivas faculdades.

Sugestão. É preciso se aproximar mais e agir em conjunto com as autoridades, no caso o Ministério Público, vereadores simpáticos às questões estudantis, a OAB (que tem em seu Estatuto compromisso com o ensino superior), contando com a mediação de jornalistas. Manter Twitter e um blog pode ajudar a divulgar o que acontece. Contudo, antes de tudo isso é preciso ter pleno conhecimento da diversidade que constitui a identidade do corpo discente superior brasileiro.

Uma pesquisa realizada pelo Datafolha indicava 50% de evasão do ensino superior. Dados do INEP têm confirmado esses números. Enquanto em cada estado do país o movimento estudantil não souber, em cada faculdade, por que os estudantes deixam os cursos (se é transferência de faculdade, falta de dinheiro, deslocamento caro da cidade onde mora para a faculdade, mudança de emprego etc.) não saberá para quem se movimenta.

Enquanto isso, vamos torcer para que os ônibus voltem a levar meus alunos para as faculdades no próximo semestre.


2 comentários:

centrodosestudantes disse...

Muito importante esse problema por você levantado. O problema é que é errado achar que é erro de estratégia do movimento estudantil não atuar nessa questão da forma que deveria, o problema é falta de condições para isso mesmo. O Movimento Estudantil capenga por cauda da baixa polização do jovem e do adulto.
www.blogdoces.wordpress.com

Sérgio Coutinho disse...

Grato pelo comentário, mas mantenho a mesma impressão. Afinal, mesmo sem estrutura é possível com alguns telefonemas, um ou outro e-mail, contato com autoridades para negociar as questões que abordei. Sobram palavras de ordem e faltam estratégias. Há táticas mas não estratégias. Abraço.

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