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domingo, 21 de junho de 2009

O que faz algo ser real?

Um condomínio de luxo mantém a ilusão de um mundo inalterado com o passar dos anos, apesar do aumento da violência e devido ao trabalho incessante da classe média, que sonha morar lá e ignora aqueles que não conseguem se fazer ouvir e estão na base miserável da sociedade. Enquanto isso, um lumpen proletariado, ignorado mas em grande número, integra-se ao redor de um líder da mesma classe, sem que aquela classe média perceba por confundir sua linguagem com grunhidos, tamanho o desprezo já acumulado. Até que lideranças das três classes sociais entram em conflito.


Esta é a história de um dos filmes que assisti no fim de semana, Terra dos mortos. É um filme de terror com análise socioeconômica clara e constante, como acontece em todos os filmes de George Romero. Porém, neste, os zumbis são uma classe lutando por direitos. O que poderia ser ridículo torna-se reflexão madura sobre tolerância entre povos. Humanos "vivos" brigam entre si por serem negros, latinos, prostitutas, terem deficiências, e por diversos momentos a existência de mortos-vivos se torna algo completamente secundário. É possível encarar o grupo desmorto esquecendo por diversas vezes desta característica. Para ser assistido mais vezes, para ser debatido, clássico instantâneo. 


Contudo, não é este filme que mais me interessa. Logo, depois, assisti seu filme mais recente, Diário dos mortos. Para quem não liga nome a pessoa, George Romero criou o subgênero filme de morto-vivo no terror mas fora copiado apenas na mitologia, não na reflexão. Passou mais de trinta anos sem filmar, até que voltou nesta década e fez estes dois (Diário... terá continuação).


A percepção do nosso tempo em Diário dos mortos poderia ser um documentário, se não fosse um filme de terror e não tivesse mortos-vivos. Em vez de classes sociais, ideias propriamente pós-modernas veem a discussão. E como o filme é narrado em primeira pessoa, a reflexão é constante. Num mundo em que todos são produtores de conteúdo nos meios de comunicação, o que é a verdade? Os protagonistas, que enfrentam uma súbita onda de pessoas recém-falecidas que voltam da morte para devorar os vivos, acreditam que isso é real depois que ouvem no rádio mas podem comprovar assistindo no youtube. A despeito de tudo que acontece ao seu redor, procuram a todo tempo filmar porque assim todos saberão que é real. "O que não está filmado não aconteceu", é repetido várias vezes.


A imagem se autonomiza de tal modo que, diante de um vídeo montado pelo governo para acalmar a população, os protagonistas fazem montagem própria para enfrentá-la. E alguém grita "conseguimos, milhares já assistiram no myspace", sem que a maioria se preocupe com contato com a família, importa apenas o duelo de imagens. "Trocamos dezenas de mentiras de alguns canais de TV por milhares de mentiras de blogs, vídeos, mensagens de texto" também é algo dito no filme. 


A história, se existe, não é linear. O tempo é a todo tempo reconstituído pelos protagonistas. Perceba o plural. Quase todos os seriados hoje são assim. Não há mais herói, não há mais protagonista. A sua subjetividade tem tanto espaço que você escolhe entre diversos personagens por quem torcer. A história vai se construindo por mensagens de texto, vídeos de celulares, câmeras de segurança, quase ninguém tem nome mas os equipamentos usados para filmagens têm. Quando a simulação da realidade supera a própria realidade a verdade deixa de ser um conceito fundamental para a vida. A reprodução das ideias se torna algo autônomo entre as pessoas. Ou não passamos por um acidente na rua já pensando  que é bom ver o que aconteceu ali... mais tarde na internet. 


Assisti em seguida "Sob a máscara", extra de Watchmen. No DVD, é dada ênfase apenas a Contos do Cargueiro negro como título, mas são na verdade duas histórias. Na HQ Watchmen, há vários extras entre eles fragmentos da autobiografia de um super-heroi aposentado. A história é da década de 1980. Quando, neste século, foi adaptada para um (interessante) filme, esses fragmentos foram convertidos num programa de TV com depoimentos inconclusos de vários outros aposentados. Não há narrativa clara, você monta aqueles pedaços como acreditar, considerando verdadeira esta ou aquela versão, sem verdade.


Diante de novas relações humanas, mais fragmentadas e construídas não apenas com o ciclo da vida mas com todos os caminhos que nos oferecem informações, uma nova perspectiva do mundo passa a estar em construção e com ela impactos nas artes em suas diversas manifestações. Com tamanha abertura para nossa subjetividade, quem domina a imagem e consegue reproduzir conteúdo não tem mais o monopólio da fala, criticado na era da TV, mas o direito a existir. Como é bem lembrado em Diário... , citando Dickens, é o melhor dos tempos, é o pior dos tempos.

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