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segunda-feira, 27 de abril de 2009

Nas bancas

Na revista Época dessa semana (capa à esquerda), há três destaques para os temas aqui abordados normalmente.

O primeiro está logo na capa: é a edição verde do ano. Todo ano a revista tem uma reportagem especial sobre as últimas descobertas sobre a destruição ambiental e novas medidas para combatê-la.

É também dada sequência ao Projeto Generosidade. Igualmente todo ano, com um leque farto de patrocinadores, o Projeto Generosidade, da editora Globo, traz uma série de reportagens em que a cada semana uma ONG é apresentada e, no fim, é escolhida uma para receber um prêmio. Incluí um selo do projeto à direita para que possam conhecer os participantes desse ano e das edições passadas.

A notícia de impacto real vem com outra tradição da revista: a reportagem sobre educação. Nesta semana, uma das mil vergonhas nacionais, esta raramente comentaa, está sendo enfim tirada do armário: o modo como o preconceito à diversidade sexual nasce e se reproduz nas escolas.

Nasce, pois o estudante não-heterossexual testa estereótipos para descobrir até que ponto pode se expressar sem ser "descoberto" ou se pode "se assumir" sem riscos. Normalmente, trata-se da descoberta pública da vida privada como algo quase criminoso, tamanha é a repressão. por isso expressões como "assumir" são comuns, como se um crime fosse confessado. As expressões entre aspas assinalam algo que sempre me chama a atenção. A cultura nordestina associa continuamente a não-heterossexualidade a algo digno de risos mas, se alguém quiser exercê-la e não puder ser exposto ao ridículo, converte-se logo em motivo para desprezo. E do desprezo ao ódio é só uma questão de segundos. Somos treinados a identificar todo gesto masculino diferente do normal como algo efeminado e, como tal, que deva ser reprimido. O riso que normalmente acompanha faz tudo parecer inofensivo mas, como o movimento negro tem tradição em repetir há muitos anos, piada só é piada se não deixa vítima.

Reproduz, pois professores e diretores tratam os próprios preconceitos com a naturalidade que a aceitação social do ódio à diferença lhes concede. Os estudantes não-heterossexuais entrevistados pela revista não tinham que lidar apenas com preconceito de colegas de escola, mas de toda a administração escolar.

Felizmente, a revista mostra exemplos bem sucedidos, como a secretaria de educação do Pará, que treinou diretores e professores e criou um cadastro de alunos transexuais, que podem se registrar na escola usando a identidade com a qual querem ser conhecidos. Está também sendo elaborado um kit de providências no Ministério da Educação para combater o preconceito ligado à sexualidade nas escolas e foi iniciada uma pesquisa quantitativa para identificar os mecanismos desse preconceito, com questionários que começaram a ser aplicados em escolas de dez capitais.

Saindo da revista, na esquina do meu prédio há travestis que se prostituem. Um vizinho do prédio exigiu, numa reunião de condomínio, que fossem tirados de lá. Pois, abordavam a esposa e ele com "piadinhas". Quando o síndico perguntou o que eram as piadinhas, o único exemplo de que ele se lembrou foi "eles dizem 'boa noite' toda vez que veem a gente". O ódio não permite que quem se supõe ser diferente participe de gestos do cotidiano daqueles autorizados a partilhar a vida supostamente normal.

Há alguns anos, na segunda conferência estadual de direitos humanos de Alagoas, o grupo Pró-Vida, que defende os direitos de transexuais e travestis alagoanos, era o mais atuante na organização do evento. Quando apresentaram suas reivindicações, fizeram questão de ressaltar uma. Queriam o direito a sair de dia. Estavam cansados de viver na cidade como vampiros, que apenas podem participar da vida urbana na hora de se prostituir ou em serviços ligados à estética ou à moda. Queriam o direito a trabalhar em farmácia, voltar a estudar, ir para fila de banco, frequentar supermercados, tudo durante o dia.

Essa noite eterna, como todas as formas de inabilidade para conviver com diferenças, também é alimentada nas escolas.

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