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segunda-feira, 30 de março de 2009

Palestra na quinta-feira

Na quinta-feira, darei uma palestra no II Seminário de Carreiras Jurídicas, que será realizado no auditório da Escola Superior da Magistratura de Alagoas. Estarei lá na segunda noite do evento, dia 02 de abril.

Falarei sobre a atividade de professor de direito como carreira jurídica. É estranho, afinal é difícil ver quem junte "professor de direito" e "carreira jurídica" numa mesma frase.

Vejamos os problemas que podem ser examinados sobre o assunto, mas sob duas perspectivas: reconhecimento como atividade profissional e formação contínua.

Em entrevistas e palestras, quando digo que sou professor de direito é comum substituírem por "advogado". Passei a me apresentar apenas como sociólogo para ficar mais coerente. Ainda assim, numa entrevista à televisão perguntaram quatro (!) vezes: "tem certeza que quer ser apresentado como sociólogo?" "ok, ok, pode dizer advogado..." e a moça saiu com sorriso de alívio no rosto.

Num surto de ingenuidade, publiquei num jornal local um artigo em defesa dos "professores-advogados". Na última eleição à presidência da OAB, os candidatos só falavam nos "advogados-professores", que ensinavam "por amor à causa, por sacerdócio, por..." daí vi que tinha gente mais ingênua que eu.

Já parei de contar quantas vezes me perguntaram "além de ensinar, você trabalha?". Trabalho intelectual não é valorizado. Se for o trabalho de professor, produzindo conhecimento sem deter poder, pior ainda.

Ouvi de um diretor de faculdade: "não costumamos ter professores aqui, apenas profissionais". Ele não se referia a profissionais do ensino, é bom deixar claro. De outro diretor: "temos no nosso corpo docente profissionais e professores"; corrigiu em minutos, mas o ato-falho espelha o senso comum no estado, talvez no Brasil: quem reconhecerá o profissionalismo da atividade docente num país de analfabetos? Ambos disseram seus absurdos em reuniões de professores nas respectivas faculdades. E os professores ouviram sem espanto. Afinal, a rotina é lidar com a atividade como sendo um passatempo remunerado enquanto não arruma coisa melhor ou um hobby para horas vagas da "carreira de verdade".

Fora de universidades públicas, é difícil e desanimador. Resta como alívio publicar, dar palestras, fazer tudo o que é não-remunerado para compensar o ocaso da protocarreira.

Alunos, querendo elogiar, já me disseram "professor, você estuda tanto, não devia estar aqui na faculdade". Deu vontade todas as vezes de dizer que preferia estar num cinema, num bar, mas podia terminar saindo a piadinha "Eu podia estar matando, eu podia estar roubando, mas estou pedindo um minuto da atenção dos senhores...". Me segurei a tempo.

Já tive meu estoque de broncas de coordenadores e alunos porque estes reclamavam porque eu queria que lessem; já tive minhas ameaças de morte,uma delas em sala de aula, outras dentro das instalações das faculdades; já tive bom número de variações salariais típicas de horista e todo tipo de desestímulo à formação continuada. Já não faz mais diferença, após ter passado por tantas faculdades, especificar onde ocorreu isso ou aquilo. Importa apenas que ocorre.

Sobre esse último item, tive dificuldade para responder a uma amiga que perguntou "por que fazer doutorado se não ensina numa universidade pública, que é onde existe pesquisa?". Terminei desistindo de responder, disse apenas que faria como um hobby. Mas mesmo essa iniciativa é desestimulada a cada nome de universidade mencionada e com a lembrança de que faculdades particulares não concedem bolsas de estudos para doutorado do seu corpo docente.
Caso faça o curso, será na condição num futuro próximo de servidor público, seja em que cargo for, menos como professor. Logo, logo, pretendo aderir a esse vasto número de profissionais que às vezes ensinam.

E ainda ouço que tenho sorte. Afinal, amigos já foram ameaçados de demissão em outros estados do país por estar fazendo doutorado, também já tiveram carga horária reduzida pela mesma razão. O máximo que ocorre por essas terras é reduzir salário por ser horista e trocar horas de aula por horas em viagem para estudar. Apesar de amigos ouvirem às vezes numa faculdade da cidade "professor, quando vai terminar esse doutorado para deixar de chegar atrasado?". Tenho amigos em outros estados substituídos por cursos em DVD, que não recebem salário há meses, onde a OAB só consegue fiscalizar a faculdade com escolta policial. Talvez eu tenha sorte, mas porque os critérios são muito modestos.

Como em todo o país são raros sindicatos que deem atenção ao professor universitário, exceto na homologação de demissão, resta ficar resmungando com o passar dos anos, remoendo intrigas para passar o tempo e repetindo as mesmas reclamações contra alunos, como se eles fossem de fato o maior dos problemas. Espero deixar esta vida antes de chegar a tal ponto.

Escrevo estas linhas por duas razões. Percebi que em dois anos do blog ainda não tinha tocado no assunto da minha própria profissão. Também porque não falarei nada do que aqui está na palestra. É voltada aos jovens. Dizer a verdade para eles apressa demais o envelhecimento.

Que vão me desculpando o ligeiro mau humor do texto. Mas, além da palestra, vai ver que tem ligação com o fato de ser semana de provas.

1 comentários:

Rodrigo Oliveski disse...

Bom dia meu amigo, fazendo uma publicidade do seu blog la no meu , blz? abrasss fik com Deus.

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