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sábado, 28 de fevereiro de 2009

Esquerda e Direita na Crise

Meu xará Malbergier, da Folha, publicou um ótimo artigo sobre a crise dos extremos ideológicos, das ortodoxias à esquerda e à direita, que se torna evidente no contexto da atual crise da economia mundial. As soluções que consensualmente têm-se mostrado mais eficientes convergem para algo ao redor da Centro-Direita, um caminho que apara as arestas do mercado e não deixa espaço para grandes tentativas de mudança política.

Você conhece alguém que tenha se tornado "de esquerda" (como isso soa antiquado!) com a atual crise do capitalismo?

O sistema mais uma vez agoniza. Mas se nos anos 1930 essa agonia fortaleceu totalitarismos à esquerda e à direita, desta vez a saída é para o centro. Ainda bem.

Ninguém que conta quer revolucionar nada, mas aperfeiçoar (o que por enquanto significa limitar) as poderosas forças do mercado e da livre iniciativa.

A crise global serviu para mostrar os limites atuais do liberalismo econômico, assim como os ataques do 11 de Setembro frearam o avanço das liberdades individuais.

Mas são dois movimentos convergentes, inevitáveis em nossa cultura individualista, baseados na percepção, cada vez mais óbvia para mais gente, de que quanto menos o governo interferir em nossas vidas e quanto mais formos donos dela, melhor.

Pois por mais que se fale da importância do Estado neste momento, ninguém o defende como solução permanente para as necessidades de desenvolvimento das nações. Muito pelo contrário.

A emergência da China capitalista fechou o círculo econômico global. O capitalismo foi flex o suficiente para abraçar o maior Partido Comunista da história que conduz a maior expropriação de mais-valia do mundo para lucro de grandes corporações ocidentais.

E todos estavam felizes com o casamento. Até o colapso do sistema financeiro como o conhecíamos e sua dolorosa recomposição.

Nos Estados Unidos de Barack Obama, o maior líder global e sua equipe deixam claro sempre que podem que o estatismo da hora é tão inevitável quanto indesejável no longo prazo. A Europa também está fincada do centro para a direita, como na Alemanha, na França, na Itália e no Reino Unido (sim, o trabalhismo britânico é de direita).

Na Ásia, o capitalismo enriqueceu os principais países da região, com a exceção óbvia da obscurantista Coreia do Norte, que repele pelo exemplo.

Na América Latina, os dois líderes mais populares são Lula e Álvaro Uribe, o presidente da Colômbia, ambos também de centro-direita no diapasão macroeconômico.

A tal Revolução Bolivariana de Hugo Chávez e Cia parece mais uma paródia da paródia, "Bananas" de Woody Allen levado à vida real por personagens ainda mais autênticos, dirigidos por Zé Celso Martinez.

O petrocaudilho venezuelano, por exemplo, apenas clona o modelo da antiga República venezuelana que dividia a renda da venda do petróleo aos EUA entre os apaniguados de AD e Copei. Agora a divisão é entre os favoritos do ex-coronel que quer ficar eternamente no poder, como seu ídolo Fidel Castro, o ditador de pijamas, que colocou seu irmão Raúl no comando modorrento de um regime moribundo. Quem quer isso?

Quem quer a rigidez, a prepotência, a ineficácia e a corrupção inevitáveis dos governos pantagruélicos? Ninguém. Ou quase ninguém.

As viúvas mais enrustidas da foice e do martelo tentam gritar que a solução para a aguda crise do capitalismo são as antigas ilusões socialistas tão desacreditadas pela história. No último Fórum Social Mundial, em Belém do Pará, até as mangueiras perceberam quão esvaziado está o movimento esquerdista global em plena crise capitalista.

A mão invisível que pune financistas inescrupulosos e suas muitas vítimas também golpeou, mortalmente, as pretensões da antiga esquerda de se reerguer como opção ao sistema hegemônico.

Um ganho colateral importante nessa triste crise transformadora.

Apesar do que possa ser interpretado pelo texto, exceto pelos devaneios extremistas as opções à esquerda e à direita ainda se mostram lúcidas em sociedade. Respectivamente, analisar o bem-estar direto da população e a efetivação das suas garantias historicamente conquistadas como investimento público ou como gasto é um dos grandes parâmetros para a dicotomia há pelo menos alguns séculos. Continua do mesmo modo, sendo diretriz para debates seja o presidente Obama ou Lula.

A diferença é que gritar pela emergência de uma revolução não se mostrou uma iniciativa coletiva pragmática. Não há qualquer contexto sócio-cultural que ampare esse discurso hoje. Aqueles que assim ainda gritam conseguem no máximo alguns pescoços balançando entre a ignorância ao que ouvem e a gentileza a quem fala.

O Estado de Direito deixando de ser visto como inimigo ou como aliado mas passando a ser um instrumento público, um objetivo histórico da democracia moderna é enfim alcançado: a impessoalidade da instituição. Sempre que vista de modo personalizado, tem instrumentos igualmente públicos (estatais ou não) para denunciar, fiscalizar e enfrentar sem precisar ser preso por ter opinião. Isso não amordaça, mas neutraliza por tornar anacrônica qualquer oposição ruidosamente e urgentemente transformadora do mundo.

É uma grande conquista para todos nós. Ou pelo menos que assim seja.

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