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sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Levemos flash mobs a sério

Muitas modalidades de mobilizações já surgiram na internet. Campanhas por meio do orkut, por msn, já são habituais. Contudo, nada on-line teve o impacto concreto das flash mobs.

São mobilizações agendadas com alguma antecedência e divulgadas pela internet. Basta informar dia, hora e lugar onde as pessoas devem estar e o que devem fazer naquele dado momento. Quando há grande número de pessoas e a ação dura alguns minutos, ainda pode haver alguém para orientar a multidão.

Desde parar de repente atravessando uma avenida, passando por dar um salto todos juntos numa praça, até ir de uma estação do metrô a outra sem calça tudo parece poder ser objeto de flash mobs (até agora desde que seja lícito).

Um exemplo da última semana mostra que a iniciativa deixou de ser uma brincadeira. Cerca de 1.500 pessoas em New York e tantas outras em 22 cidades pelo mundo tiraram a calça no metrô na última semana para ir de uma estação para outra (vídeo abaixo).




A ideia partiu do movimento Improv Everywhere, que é especializado em flash mobs. Suas ações costumam ser pautadas não por qualquer ideologia, mas por intervenções estéticas. Além do passeio sem calças (já tiveram um no shirts antes), já fizeram atos de complexidade como o Espelho Humano, em que gêmeos sentavam frente a frente em estações de metrô. O movimento orgulha-se de contar com mais de 80 intervenções urbanas.

Já tivemos pelo menos uma flash mob brasileira, organizada pelo Interney. Diferente da maioria das versões, esta teve um contexto político claro. Afinal, tratava-se de oposição ao projeto de lei do senador Eduardo Azeredo que facilitava a vigilância sobre quaisquer atividades on-line. O receio à liberdade de expressão ficou grande em muitas comunidades on-line.

Bastava comparecer à Av. Paulista às 18:30h do dia 14 de novembro passado com uma folha de papel sulfite escrita com apenas a mensagem NÃO AO PL AZEREDO. Ocorreram mobilizações no Rio de Janeiro e em São Paulo, ambas de apenas 30 segundos (fotos e mais informações aqui).

Sempre são breves, pois importa que sejam filmadas e fotografadas para divulgação pela imprensa e por orkut, youtube etc. Usa-se, assim, os instrumentos típicos do culto à celebridade instantânea com novos objetivos.

É possível perceber, então, que uma medida que, aparentemente, seria uma brincadeira (como pretende o Improv Everywhere) não precisa de grandes esforços para se tornar tática de movimentos sociais. Afinal, normalmente não se sabe de nenhum objetivo naquilo que se faz, mas aquele que executa a ação pode estar contribuindo para alguma ideia do organizador. A obediência cega, disfarçada pela simplicidade da tarefa ou pela diversão, pelo caráter instantâneo, mostra tanto a necessidade com que nós, seres humanos, buscamos constantemente formas de nos socializar quanto como tantos entre nós buscam ordens de obediência coletiva, mesmo que anônimas e sem objetivos. Uma paródia a flash mobs mostra bem isso.



É uma mobilização com dançarinos contratados organizada pela operadora de telefonia celular T-Mobile. Se demorassem alguns dias após a execução dessa medida numa estação de trem (realmente há um fetiche com transportes públicos ainda não estudado nas flash mobs) para a divulgação, passaria facilmente como uma flash mob. E por que uma flash mob não faria algo semelhante?

Onde há censura, uma manifestação de 30 segundos em que os participantes não se conhecem e têm ordens de se dispersar no instante seguinte dificilmente não seria bem-sucedida em qualquer lugar do mundo. Até que ponto os participantes constantes estariam pegando prática útil para mobilizações políticas ainda é algo imperceptível, dada a brevidade da existência dos grupos organizadores (O Improv Everywhere existe desde 2001 e é um dos mais antigos).

Acompanharemos as próximas, mesmo que durem um piscar de olhos, pois alguém vai tirar fotos, filmar, contar para amigos que participou, dar entrevistas, enfim, transmitir que é possível, unir seres humanos em grande número pelas mais absurdas causas instantâneas. Então, bem menos difícil deve ser fazer o mesmo em nome de causas com maior racionalidade.

E você, já participou de alguma?

2 comentários:

Antonio Celestino disse...

Olá Prof. Sergio. Eu tive a oportunidade de testemunhar uma ação do Improv Everywhere em NY na comemoração do aniversário da Brooklyn Bridge, centenas de pessoas subiram na passarela da ponte e acionaram os flashes de suas máquinas ao mesmo tempo, a sincronia não foi perfeita mas o efeito foi legal e é de arrepiar como eles conseguem mobilizar tantas pessoas, eu mesmo já me inscrevi na lista deles, pena que por aqui não exista nenhuma ação do tipo.

Eles não alegam nenhum tipo de manifestação política, mas acredito que suas "brincadeiras" tenham sempre como alvo o dia agitado e rotineiro dos americanos. Já fizeram uma mobilização na Grand Central (um dos locais mais agitados de NY) aonde dezenas de pessoas simplesmente viraram estatuas vivas, diversas de ações "camera-lenta" em grandes reder de varejo e até uma encenação dramática (onde ketchup era o tema principal) no meio de um shopping.

Tenho dificuldade de imaginar outra forma melhor de se manifestar sobre esses hábitos do que com o bom humor e a inteligência deste grupo.

Sérgio Coutinho disse...

Tony, muito thank you pelo depoimento! Faz tempo que quero participar de uma dessas iniciativas. São, realmente, inicialmente, despolitizadas. Mas pensa comigo: à medida que mostram novos olhares sobre o espaço urbano, quantas reflexões trazem sobre nossas cidades?

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