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sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Estamos atrasados?

Essa foto foi tirada há dois dias. Até então, as redes de internet sem-fio em motéis pareciam para mim ser o máximo ligado ao assunto. Já faz meses que pessoas patinam nesse shopping center mas, devido a sempre passar com pressa pela frente, apenas nessa semana vi a placa "Não use o celular enquanto estiver patinando!". Decidi republicar o texto abaixo devido a essa placa. Decidi republicar hoje porque levei um susto ontem. Estava no elevador e umvizinho, à noite, se despediu no elevador dizendo "Bom descanso". Ouvi o mesmo de um segurança do cursinho no dia anterior e nas duas ocasiões soou estranho. Vejamos por quê.

Há muito tempo, havia os cigarros de chocolate. Luis Fernando Veríssimo escreveu uma crônica sobre a importância deles. Não exatamente deles, mas do ritual da vida adulta (abrir a caixa de cigarrilhas, escolher uma, tirar, dar um clic na caixa, bater com a ponta da cigarrilha contra a caixa...) que as crianças podiam se acostumar a reproduzir. Talvez faltem treinos para os rituais da vida adulta hoje.

Não se trata de trazer de volta aqueles cigarros (que não lembro se já comi um dia), mas de lembrar da vida que se deixa de ter. Os almoços de negócios deixaram de ser uma reunião celebrada enquanto se esperava que a comida fosse servida para se comer falando apressadamente em bandejões mais ou menos arrumados. Tudo pode ser servido como fast food. Comer é um ritual cada vez mais ameaçado. Cada vez mastigamos menos o que comemos. Proliferam copinhos de milho em vez de espigas para agilizar até essa prática ancestral.

Ficou tão banal começar um relacionamento que já não se sabe mais nem mesmo como definir ou se é preciso definir ou se é preciso admitir que é um relacionamento. Pode-se dançar com alguém de costas para a pessoa e ainda assim "ficar" durante aquela música. Em outros tempos, a música dizia "Fica comigo essa noite e não te arrependerás..." hoje basta "se ela dança eu danço". Basta, assim. A pressa para ter alguém no mínimo tempo gera assim mais um fast food. Como sempre, a digestão de tudo que alimenta o espírito fica comprometida.

Não sei se a ideia é minha. Se alguém encontrou aí um plágio, é bem intencionado e por isso não digo que sou o autor. Isso parece poder ser explicado pela Psicanálise como Complexo de Coelho Branco. (Certo, a Psicanálise talvez não chame assim, mas fica o dito pelo não dito...)

Já falei sobre ele com amigos. Acharam a idéia simpática (ou são mesmo muito meus amigos para terem elogiado). Quando o Coelho Branco corria no País das Maravilhas, Alice perguntou para ele "Por que corre, sr. Coelho?" e ele respondeu "Não sei! Mas eu sei que estou atrasado!". Os rituais da vida (seduzir, degustar, baforar, cafungar...) levam tempo, exigem dedicação, e já não apenas não existe tempo. Chegamos tarde sempre para tudo que tentamos fazer. Estamos atrasados para sermos nós.

É possível dizer que a culpa é da pressão do desemprego fazendo todos se dedicarem mais e mais ao trabalho; da tecnologia gerando máquinas orgânicas, entre outras teorias repetidas ad nauseam há décadas. Isso também é parte do Complexo de Coelho Branco: precisamos achar um culpado fora de nós pois é mais conveniente do que admitir que definimos o que é o atraso, por que precisamos correr e para onde estamos indo.

Basta constatar o que acontece nos cursos de formação, seja ela no ensino médio ou em qualquer curso superior. Em seis meses a um ano, espera-se que se tenha acesso a todo o conhecimento acumulado pela humanidade sobre uma certa área do conhecimento. Somos tão condicionados a aceitar que aquele conteúdo é suficiente. Vibramos com certas idéias, certas teorias. Quando terminam aquelas aulas e estamos aprovados, fechamos a gaveta correspondente como se fosse esquecida, para dar espaço no escasso ritmo de estudo para o ano-semestre seguinte. Escolhemos não nos dedicar àquilo que exige tempo.

Quando lemos revistas de negócios, normalmente dizem para aproveitarmos as férias para novos cursos (já me matriculei em um para as férias de janeiro), a aposentadoria para gerir um negócio próprio, falta apenas que digam para deixarmos todo descanso e toda reflexão sobre o que fazemos por aqui para o descanso eterno...

Ortega y Gasset dizia que cada vez mais bebemos sem sede, comemos sem fome e amamos sem tempo. Atribuimos cada vez menos tempo para a própria satisfação. Falta tempo. Pelo menos os Rolling Stones diziam "I can get no satisfaction... but I will try!" Falta essa tentativa, esse esforço por si mesmo em muitas das escolhas durante a vida. Falta responsabilidade pelas escolhas para alterá-las. Mas também falta tempo para isso, estamos atrasados.


Este texto é de auto-ajuda, mas apenas porque foi escrito para eu me ajudar a passar o tempo durante uma noite de insônia.

Adaptado de um artigo originalmente publicado no meu falecido blog "Eu? Minhas Circunstâncias!". Foi o único que restou de lá.


4 comentários:

Rogério Brandão de Faria disse...

Professor Sérgio, grande texto. De uma sensibilidade latente.
Interessante notarmos como somos fruto do meio que vivemos, especificamente em um mundo capitalista onde a busca do mais a qualquer custo dita o nosso ritmo de vida e a forma como vivemos nossas relações sociais. Isto funciona muito bem quando se trata de produzir geladeiras, mais quando se fala em amizade, amor, cotidiano, é outra história. O tempo é fundamental para sabermos quem são as pessoas que escolhemos para vivermos, esta vida tão corrida, ao nosso lado. Uma escolha errada pode ser trágico.
Pessoalmente, acredito que o tempo é uma invenção humana para termos o controle sobre nossas atividades, criadas pelo sistema. Temos a impressão que o tempo que passa, quando no fundo passamos nós. O tempo fica.
Já no tocante as questões musicais, recentemente estava comentando com uma tia como o mercantilismo destruiu a música. Esta deve ser um veículo de transmissão de uma mensagem que faça se sentir, se tornou algo apenas comercial, sem alma, sem nexo, sem vida. É uma pena.
O atual sistema é isso. Uma espécie de Midas ao contrário. Tudo que toca, destroe.
Porém, é aqui e agora que estamos. Cabe-nos sair desta bolha ilusória e valorizarmos aquilo que nos interessa e que nos importa, sem nunca esquecermos que estamos passíveis de sermos atropelados pela Roda Viva que carrega nosso destino pra lá.
Abraço
Rogério

Antonio Celestino disse...

Adorei esse texto. Muito realista e atual.

Realmente parece que estamos seguindo os passos do Coelho Branco. E tem como seguir outro caminho? Acho que não daria tempo para mudar de rota.

sociologiaparaprincipiantes disse...

Tendo sido agraciados com o Prémio Dardos e sendo uma das suas condições: escolher outros blogs a quem entregar o prémio, e sabendo que um blog se constrói e se constitui através de um “namoro” constante e permanente entre o que é publicado e os leitores (na sua maioria também bloggers), optámos por o partilhar, com todos os leitores, que até hoje nos visitaram.
Em sua representação, é com muita satisfação que partilhamos o Prémio Dardos com todos os seguidores do nosso blog, o que é o seu caso.
Vá até ao nosso Blog e copie-o para o postar.
Abraço.

Adrualdo Catão disse...

Amigo,

esta pressa diária pesa sobre mim também. Tento remediá-la com um pouco de concentração e momentos de ócio, que são muito importantes para uma vida produtiva. Acho que só nos resta simplesmente curtir o caminho sem se estressar com este bendito coelho branco.
Abraços.

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