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quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Não se anule

O voto nulo às vezes tem sido objeto de campanhas anti-eleitorais precipitadas, veiculadas, principalmente, pela internet. Hoje, não faz mais sentido anular o voto como estratégia de protesto. É um discurso que traz consigo três grandes problemas: anacronismo, alienação e omissão.

Antes, é preciso esclarecer que não se está afirmando que ninguém deva anular seu voto. É uma decisão individual tão digna quanto o voto em branco, a abstenção ou escolher um dos candidatos. O problema que agora se ressalta encontra-se na campanha,ou seja, na defesa coletiva da apatia política.

A campanha é anacrônica. Não faz sentido em nossos dias. O voto nulo foi voto de protesto enquanto não existiam as urnas eletrônicas. Era possível escrever mensagens nas cédulas eleitorais. Não apenas eram, pois, anulados, mas levavam recados por meio da imprensa quando divulgava por curiosidade ou adesão à campanha. Dois pleitos tornaram-se célebres a partir de campanhas pela anulação dos votos. Em 1958, o rinoceronte Cacareco em São Paulo e, em 1988, o macaco Tião no Rio de Janeiro tiveram participação significativa nos pleitos por meio de votos nulos, ridicularizando candidatos. Não passou de exercício criativo de senso de humor. Os inimigos dos anuladores riram junto, pois garantiram suas cadeiras na política institucional. Hoje, não há mais cédulas. O máximo que se consegue é digitar um número aleatório e apertar o botão “confirma”. Por não haver candidato associado ao voto, será considerado nulo. Não há mensagem alguma. Nunca mais Cacareco e Tião voltarão à vida pública.

A campanha é alienante. Quem optar por anular seu voto antes de saber quem serão os candidatos, escolhe fazer militância em nome da desinformação política. Prefere ignorar quem tem se empenhado em denunciar em CPIs colegas de mandato, quem mantém carreiras acima de qualquer suspeita, quem tem convicções ideológicas claras e luta por elas a despeito mesmo da manutenção de seus empregos. Nem mesmo quer saber os nomes dos candidatos. Para quem decide agir assim, anular o voto é um esforço inútil. Precisará enfrentar filas, cabos eleitorais, um grande desconforto para não escolher ninguém. É mais útil procurar uma praia numa cidade próxima, justificar o voto no fim da tarde e se divertir, em vez de defender a ignorância coletiva.

A campanha pelo voto nulo é omissa. Em vez de agir contra a direita que se perpetua no poder há tantos séculos, em vez de defender a construção de alternativas políticas, embarca numa aventura sem conseqüências. Afinal, mesmo que a maioria dos votos sejam nulos (o que a campanha não deve conseguir atingir), alguém será eleito. Todos que supostamente são combatidos pelos militantes da auto-anulação política nem mesmo se importarão com esse esforço. Os votos nulos não lhes fazem qualquer diferença. É preciso lembrar que, na Venezuela, mesmo com abstenção de 70% da população nas eleições parlamentares, o Congresso teve as cadeiras preenchidas.

Defender o voto livre do caráter obrigatório de hoje pode ser uma campanha válida. Combater a crise ideológica dos partidos, também. Anular o voto, por outro lado, significa anular a si mesmo como cidadão numa oportunidade de participação em debates nacionais que apenas costumam surgir a cada dois anos. O voto nulo é, assim, um voto contra si mesmo, pois aposta no imobilismo social e na resignação diante de frustrações coletivas além de ignorar o esforço de milhares de brasileiros que morreram defendendo o direito ao voto, a superação do vínculo deste direito à propriedade de terras ou à cor da pele.

Na dúvida, confie no Google, dê um voto de confiança às últimas sugestões deste blog e vote.


Versão de artigo que publiquei no Observatório Alagoano em junho de 2006

3 comentários:

Cássio Augusto disse...

Sou contra o voto NULO!!!

Carlos Henrique Leda disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Geraldo Gomes disse...

EU NÃO VOTEI e NÃO IREI VOTAR NA PRÓXIMA ELEIÇÃO!Anafalbeto?Sou!Mas irei ser guiado pelos que conduzem as sociedades!O que teu voto irá mudar em relação à FOME no planeta terra?O que teu voto irá mudar em relação as violências no planeta terra em especial À INDIFERENÇA?Ë óbvio que as opiniões variam porém é necessário coragem e discernimento para não se deixar guiar-se por verdades que são mentiras.Sabes o que é o "DIREITO de ANTENA"?Sabes quem no Brasil fazem uso de tal direito?DEMOCRACIA?Somente um Inteligente é capaz de confundir democracia com o futebol,o sexo,o carnaval,os templos religiosos,os cqc e bbb e novelas,os shows gratuítos e o voto consciente.E LEMBRE-SE:Se o voto eleitoral causasse transformações úteis ao povo os pobres e desvalidos seriam também excluídos das eleições.

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