Translate

sábado, 20 de setembro de 2008

O Manifesto Sandler



(DESSA VEZ NÃO CONTO O FINAL DO FILME, MAS É PREVISÍVEL)

Gosto da franqueza com que o cinema e a música dos Estados Unidos, por mais pop que sejam, expressam orientações políticas. Madonna, em seu show que logo estará no Brasil, compara Obama a Gandhi e McCain a Hitler. À parte os evidentes exageros, não tem pudor para declarar seu voto. Assim também foi exigido nos quadrinhos por lá entre as grandes editoras. O grande mote da série Guerra Civil da Marvel era exatamente De que lado você está?. Há constantemente uma cobrança midiática por aquelas terras pela orientação política de cada um. Talvez desde que Disney enviou o Pato Donald para a Segunda Guerra, talvez antes, os símbolos de uma pátria, por mais descartáveis que sejam, têm algo a dizer. E desde que a doutrina McCarthy perseguira os artistas de orientação de esquerda de lá todos se manifestam com vigor. Tivemos um golpe militar, um impeachment, um monte de relatórios de CPIs mas nossa classe artística ainda é tímida em assumir sua condição de formadores de opinião e puxar debates relevantes para o povo brasileiro. Aprendamos com o cinemão americano.

É nesse contexto que enquadro o mais recente filme de Adam Sandler, Zohan. Pode até dizer que vejo política em tudo. É verdade, pois reconheço que todos que interagem num centro de relações humanas têm algo a dizer sobre a própria vida e que essa interação coletiva e dinâmica é política. O cinema como manifestação artística, por mais precária que às vezes seja, tem espaço para as impressões do artista sobre o mundo. Lembremos que Sandler não é apenas protagonista, mas co-roteirista e produtor do filme. Logo, é possível falar que há seu ponto de vista. Além disso, são impressões presentes em todos seus filmes mais recentes, um desconforto da pós-modernidade tardio talvez, mas é certo que a intolerância de seu país claramente não o deixa satisfeito. Nada disso aparece no trailer, mas no filme.

Em seu manifesto, denuncia o medo misturado com ódio que contaminou seu povo, com horror à diferença étnica na cidade criada sobre a diversidade cultural, New York. Com Israel que aparece como piada nos momentos em que não passa de aliada dos EUA, Sandler concentra seu olhar nos imigrantes perseguidos. Todo militarismo, todo discurso bélico são ridicularizados. Mesmo a onipresença de terroristas árabes em terras americanas, algo alimentado pela mídia daquele país desde os atentados de 11/09, é motivo para piadas (com direito a granadas misturadas a batatas fritas e rede de taxistas palestinos) para mostrar o nonsense contínuo da expectativa americana por uma guerra supostamente iminente e a necessidade de identificar inimigos entre aqueles que não conhecem.

Se há uma poeira de escatologia para prender seus fãs menos exigentes nos primeiros quinze minutos, se o protocineasta ainda não sabe lidar com a diversidade sexual, mostra humor sobre a sexualidade na terceira idade feminina como poucos cineastas fazem. Ver grosseria nesse caso é sinal de discriminação ao exercício da sexualidade em qualquer idade.

Basta lembrar o desenho animado também produzido e escrito por Adam Sandler, Oito noites de loucura de Adam Sander. Trata-se de um conto de Natal que mostrava a importância de um idoso com deficiências físicas diversas para a integridade de toda uma comunidade. Era possível perceber que por trás de toda a grosseria que ainda se espalha, democraticamente, em seus filmes, há um discurso pela alteridade constantemente propagado. O respeito à perspectiva do outro também é evidente em Espanglês e a luta pela convivência com as diferenças culturais já se mostrava também Terapia de Choque.

Se a apologia aos ideais tradicionais do American Way of Life pode trazer ânsias de vômito, pelo menos a tolerância ideológica, religiosa e, enfim, étnica foi incorporada ao manifesto Sandler em curso em sua obra. A propósito, por que nos incomodarmos tanto com o discurso do American Way of Life, o homem que pode escolher seu destino, construir e reconstruir sua vida diante de quaisquer adversidades? Parece mais produtivo do que o equivalente mais próximo que o Brazilian Way of Life alcançou, o Jeitinho...

Pode incomodar a consagração do capitalismo como solução para todos os problemas do filme (ops, lá vem o final...) mas substituir o ímpeto beligerante (agora falei bonito) daquele país pelo retorno ao empreendedorismo dos pequenos e médios empresários parece uma proposta valiosa para qualquer nação. Enfim, recomendo que assistam. Pode ser com a mão no nariz, diante das expectativas escatológicas que sempre cercam esse tipo de humor mas, segundo a sábia dica de Oswald de Andrade, vamos ver de olhos livres.


Obs. P. S.: A propósito, já perceberam como todo filme cujas distribuidoras consideram voltado ao público adolescente se espalha pelos cinemas em cópias dubladas? Será que mais ninguém lê nem mesmo legendas? Foi assim com Indiana Jones, com Homem de Ferro, com Crônicas de Nárnia. Conferi que nos DVDs também a opção dublada costuma ser a primeira. Mas talvez seja melhor deixar esse assunto para outro momento.

1 comentários:

Adrualdo Catão disse...

Ótimo texto cara. Ótimo texto. Parabéns!

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...