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domingo, 31 de agosto de 2008

"O Nevoeiro" tem neblina diante de nossos olhos

Quero adiantar a todos que querem assistir ao O Nevoeiro que vou contar o fim do filme. Quem não quiser saber, é melhor não ler. Não é resenha para assistir ou não ao filme que não sou crítico de cinema, mas puxar um diálogo com quem já viu ou com quem não assistirá de modo algum.

*****

"As pessoas são boas, decentes. Meu Deus, somos uma sociedade civilizada", diz a mocinha.
"Claro. Contanto que as máquinas funcionem e o 190 atenda. Tire isso, deixe todo mundo no escuro e assustado e as regras se vão. As pessoas vão recorrer a quem quer que ofereça uma solução. Somos fundalmentamente insanos como espécie. Coloque gente suficiente num quarto e é só uma questão de tempo até cada metade começar a imaginar maneiras de matar a outra" (copiado do Omelete)
Qualquer história em que o exército americano salve o mundo me incomoda. Qualquer história em que cientistas sejam personagens obscuros e detestáveis que apenas destróem me incomoda. Qualquer história em que pregadoras messiânicas tenham mais razão que pessoas prudentes me incomoda.

O filme tem cerca de 10 minutos geniais, lá pelo meio da história durante o diálogo reproduzido acima, vai como suspense interessante durante a primeira meia hora, tem penúltimos 15 minutos impressionantes, mas daí vem a cavalaria desprezando quem está sofrendo e queimando tudo com máscaras e tanques. Coisa horrível.

O Deus ex-machina preferido da cultura pop norte-americana está de volta, com um dos seus mais ilustres representantes. Quando qualquer história está prestes a sair do controle por lá, as forças armadas voltam a aparecer. Pode ser como o fornecedor das armas do Batman, prendendo o adversário do Hulk, unindo os Vingadores em futuro filme da Marvel, salvando Tom Cruise de aliens, encarnado em Chuck Norris, ressuscitado em John Rambo, ou como neste filme e tantos outros eliminando subitamente sem maiores explicações o mal que assombra cidades inteiras. Pode-se argumentar que alguns militares disseram no filme que eram responsáveis pelo problema criado, mas no fim da argumentação a culpa é dos cientistas. Dos cientistas! E a fanática religiosa da história, bem como seu insano culto, têm razão no fim das contas, segundo a lógica da narrativa. Tudo que propuseram deu certo, enquanto o esforço dos cientistas matou milhares de pessoas.

O cinema americano e a ciência raramente se entenderam. Como bem lembrou Carl Sagan em "O mundo assombrado pelos demônios", adoram encenar cientistas assexuados, misantropos, doidos de pedra, feios de doer, enquanto atletas de escola, bandidos de ocasião, podem ser sempre o avesso. A mensagem é clara: estudar enfeia, afasta mulheres, isola socialmente e é chato. Basta assistir seriados e desenhos animados em que cientistas aparecem. No livro "Contato", são gente normal. No filme "Contato", pescam numa piscina de plástico. Esse obscurantismo causado pelo desprezo ao conhecimento apenas pode estimular o medo coletivo, tão disseminado pela mídia e pela política norte-americanas. Não é à toa que o Criacionismo tenha sido tão bem recebido pelas escolas de lá. Há um contínuo esforço pelo desprezo à ciência na indústria cultural norte-americana.

Com tal desprezo à ciência, resta a força suplantando o conhecimento. O medo pode ser superado pelo conhecimento de como as coisas são ou pela mão firme diante de quem teme. Desse modo, com cientistas vilões que nem aparecem na história e pregadora morta a sangue frio reproduzindo no chão um simulacro de Cristo, resta o surgimento de quem de dentro do nevoeiro salvando a todos ? Das forças armadas dos USA. Aqueles por quem fomos estimulados a torcer durante o filme estavam errados. Esta é a lição da narrativa. Agiram por livre vontade e de acordo com a razão. Foram punidos nos últimos minutos com um suicídio coletivo, enquanto o culto fanático foi salvo pelo Exército porque soube esperar a salvação militar, trancados e omissos após a morte da sua líder.

Aquele país escolherá seu presidente neste ano. O favorito do mundo é alguém de quem mal se sabem os projetos para o país, mas vive falando em esperança, sonho, mudança, para uma multidão de desiludidos. Líderes carismáticos costumam ganhar força diante de tempos de crise. E a cultura pop de lá não permite visualizar com o devido desencantamento científico do mundo que discurso o candidato apresenta, o que significam suas falas, quem ele tem representado em sua biografia, em que contexto se encontra seu partido. Talvez o filme tenha razão, se for uma metáfora da sociedade daquele país. Talvez tenha um recado a nos dar. Mas seria algo muito, muito tímido diante do recado opressor da ideologia totalitária mais uma vez propagada.

6 comentários:

Elaine Pimentel disse...

Serginho, sua análise do filme aguçou a minha curiosidade. Mesmo sabendo que você contaria o final, li até o fim, com a certeza de que seria uma reflexão lúcida, que lê as entrelinhas da coisa. O cinema norte-americano tem esse potencial sedutar, de arrastar multidões e assim reproduzir sua ideologia hegemônica para os mais desavisados. Leituras como a que você faz são fundamentais para que possamos compreender, de fato, o que eles querem dizer. Vou ver o filme, só por provocação! Abraços, amigo!

Mário disse...

Olá. Vi o filme "O Nevoeiro", e tive impressão diversa da sua. Bem, acho que é apenas um filme de terror, como tantos do Stephen King, alguém que só quer pregar alguns sustos e de forma, no geral, muito criativa. Confesso que não vi essa temática política/ideológica anti-ciência no filme.Vejamos.
Não creio que o tema principal do filme seja "ciência x fanatismo religioso". Em nenhum momento a personagem fanática é mostrada de modo a induzir simpatia no público.Pelo contrário, ela é uma das "vilãs" da história, uma opositora do "herói" do filme e se apresenta como uma pessoa desarrazoada e perturbada pelo fanatismo. É uma pesornagem feita para suscitar a raiva mesmo, mostrar do que as pessoas são capazes nos momentos de crise (e essa é a temática do filme!)
O Nevoeiro não é um thriler que busca enaltecer o Capitão América, é um thriler psicológico, é um filme que simula o que o desespero pode fazer com o bicho-homem, torna-lo cada vez mais bicho e menos homem. È um filme sobre a fragilidade humana.
Quanto ao fato dos cientistas terem sido responsáveis pela catástrofe, isso é tema pra lá de costumeiro em muitas obras de ficção científica, o dilema ético, o perigo que pode vir com o desvelamento de certos segredos da natureza. O Monstro de Frankenstein de Mary Shelley, o filme Blade Runner, o próprio Alien, GATTACA e Admirável Mundo Novo, por exemplo, são obras que tratam das consequências negativas do mau uso do conhecimento científico ou mesmo uma sociedade construída sobre as "verdades da ciência". O filme não é - como as obras citadas acima também não o são - de forma alguma, uma manifestação de repúdio à ciência e exaltação do fanatismo.
Quanto aos cientistas no mundo real, já vi alguns bem de perto, já jantei com eles, já li seus livros e conheço suas biografias. De acordo com minha experiência pessoal, não é bonito de ver a batalha de egos e a mesquinhez que reina no meio científico/acadêmico. O blogueiro pode consultar biografias e a história de cientistas famosos para ficar ciente dessa fogueira de vaidades, para se inteirar de cientistas que tomaram a frente para defender regimes monstruosos e ideologias totalitárias. Não gosto de recomendar livros, mas o livro Pilares do Tempo, de Stephen Jay Gould é excepcional quando se trata do quesito ciência/fé. (não sei se o blogueiro já ouviu falar de Jay Gould, mas se não ouviu é só dar uma olhada no Google para saber o baita cientista e divulgador da ciência que ele foi).
Mas voltemos ao "nevoeiro". No meu ponto de vista, o filme trata da questão do desespero e do que somos capazes de fazer quando parece não haver saída. O filme também traz uma mensagem negativa, a de que nós não conseguimos controlar muita coisa, somos limitados, somos obrigados a tomar decisões (que podem ter graves consequências) mesmo quando as coisas estão imersas em uma névoa, quando não conhecemos todos as variáveis ou quando julgamos conhece-las. O exercito americano não aparece como salvador da pátria, o fim do filme é só para mostrar que o pai tomou aquela atitude drástica mesmo estando a poucos metros da salvação. Repare que a mulher que abandona o supermercado no início do filme para cuidar dos dois filhos está no caminhão com eles. Não porque ela tivesse mais fé ou fosse ungida por Deus. Por que ela se salvou e o grupo no carro não? Acaso, simplesmente o acaso, o imponderável. A mensagem do filme parece ser negativa, mas talvez o autor tenha tido a intençaõ de mostrar que não se deve entregar-se ao desepero, confiando e acreditando até o fim. ("Ainda que Ele me mate, Nele confiarei" - Livro de Jó).
O Nevoeiro, portanto, não parece ser um filme com temática política/ideológica que enaltece o herói americano, os fanáticos religiosos e deprecia a ciência. É só um filme de terror psicológico que trata do desespero e de decisões desesperadas.
(se o blogueiro quer um filme de "super-heróis" com temática política pra lá de interessante, aguarde Watchmen, em 2009, pelo visto vc terá farto material para discorrer sobre esse tema, é só conferir o trailer em:www.watchmenmovie.com, abraço!)

André R F Oliveira disse...

Sérgio, eu assisti ao filme e também devo discordar de seu comentário. O Filme como bem disse o Sr Mário trata de um drama psicologico. Tenta mostrar de que maneira o ser humano reage em situações que fogem de seu controle. Os monstros, o exercito americano etc são apenas ilustrações para melhor expor a ideia central do filme. Vc assistiu a "vida é bela" o filme não era sobre a guerra, muito menos sobre o exercito americano, o filme era sobre pai e filho, na ardua luta de preservar a inocencia de uma criança num campo de concentração. A guerra, o exercito tudo isso era secundário, servia apenas de cenário.

Sérgio Coutinho disse...

O cinema, como qualquer arte, costuma admitir diversas perspectivas. O discurso totalitário não nega uma leitura psicológica mas também se encaixa nela. A morte violenta de uma pregadora não é necessariamente uma condenação, já que apenas seus fiéis se salvaram. Contudo, a situação foge do controle do homem comum mas fica completamente sob controle quando o exército intervém. A análise psicológica não me parece empalidecer a conclusão militarista, com tropas guiando os civis em silêncio, sem rostos e sem socorrer o protagonista desesperado. Agradeço a ambos pela oportunidade de debater o filme. Abraços!

Mário disse...

Não entendi. Quer dizer que quando se faz necessário que o exercito - seja lá qual for motivo - entre em ação é sinal de um "discurso totalitário"? Durante a segunda guerra mundial Inglaterra, França e EUA não deveriam ter mobilizado suas tropas para deter as pretensões de Hitler? Seus generais deveriam ter ficado na cama para que não lhes caísse sobre a cabeça a carapuça de "totalitários"? Pois a situação do filme é exatamente essa, a de uma GUERRA contra godzilas e king kongs e outra dimensão, acho que é por isso que o exército está lá, não? Mas o blogueiro enxergou uma apologia ao "totalitarismo ianque" por conta do filme mostrar um pelotão em combate numa situação de conflito? Acho que o blogueiro não foi feliz em sua análise, pois o exercito nessa história é um coadjuvante.

Lady Clementine disse...

Eu li o livro há MUITO tempo atrás e está realmente igual a adaptação para o cinema, fora que o final no livro fica em aberto- coisa que no filme é superbem resolvido.
Achei genial, forte pacas e tão fiel quanto possível.
beijos,
Clem

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