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sábado, 24 de maio de 2008

Entrevista com o autor de "Corporação" na CULT

A Revista Cult deste mês publicou uma entrevista com o escritor Joel Bakan, autor do livro que resultou no filme A corporação. Segue o fragmento online da entrevista:



Pessoa jurídica

Joel Bakan, autor do livro que deu origem ao filme A corporação, explica o caráter psicopata das corporações e o perigo de se entregar a elas as rédeas da economia mundial
Por Filipe Luna
Foto: Divulgação/Nancy Bleck

O objeto de estudo do doutor Bakan são os psicopatas, mas ele não é médico psiquiatra nem psicólogo. Nem seus "pacientes" são de carne e osso. São pessoas de natureza diferente, as pessoas jurídicas. O advogado Joel Bakan ganhou fama mundial estudando uma instituição com graves problemas na cabeça: as corporações. A partir da 14ª emenda da Constituição americana, feita para proteger os direitos dos recém-libertos escravos e argumento legal usado para transformar empresas em pessoas jurídicas, ele traça o perfil psicológico dessa forma de organização empresarial que entende ter sido criada para agir como um psicopata. O seu diagnóstico é A corporação: A busca patológica por lucro e poder, livro agora lançado no Brasil, que deu origem ao premiado documentário de mesmo nome, já exibido nos cinemas daqui. No livro, e no filme, Joel analisa as práticas que considera nocivas de corporações mundiais como General Motors, Enron, Nike, Shell,Wal Mart. Empresas que, pela própria natureza e com autorização do Estado, só podem se preocupar em gerar riqueza para seus acionistas, sem se importar com as conseqüências para o restante das pessoas. E que cada vez mais mandam no mundo, conseqüência da globalização neoliberalista, cujos efeitos fazem eco em países periféricos como o Brasil - constantemente explorados na sua força de trabalho e seus recursos naturais. O resultado é um perfil detalhado da atual ordem econômica mundial, apoiado por entrevistas de executivos das empresas e estudiosos como Noam Chomsky, Naomi Klein e Milton Friedman. Da sua sala, na Universidade de British Columbia, no Canadá, o advogado com graduação em Oxford e mestrado em Harvard, explicou por telefone para a CULT a patologia de seu "paciente".
CULT - Você acha que o sistema econômico vigente está nos levando à nossa própria ruína?
Joel Bakan - Até um certo ponto, está sim. O sistema econômico atual funciona melhor quando uma série de medidas é tomada para que a dinâmica da ganância não saia de controle. Tanto no nível internacional como em termos de sistemas regulatórios locais, temos afrouxado as rédeas e permitido que decisões orientadas por ganância sejam tomadas livremente. E isso é perigoso e destrutivo.
CULT - Como evitar isso?
J.B. - Existem muitas maneiras de dominar os aspectos destrutivos e egoístas do capitalismo corporativo. O ativismo é muito importante, seja da sociedade civil, seja de organizações não-governamentais, mas acho que um aspecto necessário para controlar essas forças é o envolvimento do Estado para garantir que o interesse público esteja protegido do caráter exploratório do capitalismo. A dificuldade é que cada vez mais o Estado facilita essas dinâmicas de exploração. Essa é uma das mensagens centrais do meu livro. Dessa maneira, vão criar um sistema capitalista que é baseado no interesse próprio, na produção e acúmulo de riqueza. Se o Estado vai apoiar isso, ele também tem a responsabilidade fundamental de proteger o interesse público de ser destruído por essa dinâmica.
CULT - Mas, com as corporações financiando campanhas políticas, é possível confiar no governo para proteger o interesse público e controlar as companhias?
J.B. - Essa é o problema fundamental que enfrentamos hoje. O Estado foi capturado pelo interesse das corporações não apenas por meio do financiamento das campanhas políticas e do lobby, mas também pela ameaça de uma coisa chamada greve do capital: se o governo impuser normas e regulações sobre a corporação, ela simplesmente vai embora fazer sua sede em outro estado ou país onde essas restrições não existam. Através de mecanismos diferentes, as corporações exercem influência no Estado, tornando muito difícil para o governo em exercício proteger o interesse público. É muito difícil dizer para confiarmos no Estado como ele existe agora. Meu argumento é que, em vez de abandonar o projeto de ter controle estatal da economia e contarmos apenas com a sociedade civil e o ativismo nas ruas, o que precisamos fazer é redemocratizar o Estado. Pegar o ideal que fundamenta o estado democrático e fazer dele uma realidade.
CULT - Algum dos candidatos à presidência dos Estados Unidos pode mudar essa situação?
J.B. - Acho que o sistema político americano é muito enraizado no interesse corporativo. É um desafio substancial para as pessoas dentro desse sistema, e cidadãos em geral, tentar quebrar as amarras que as corporações têm no processo político americano. Não acho que seja impossível, mas não acho que possa ser feito apenas por um presidente. Seja ele Barack Obama, Hillary Clinton ou qualquer outro. Acho que tem de haver uma ampla atividade dos cidadãos para convencê-los de que eles têm o poder, o direito e, de fato, a responsabilidade de tomar o controle do Estado. É assim numa democracia. Observando os candidatos desta eleição presidencial americana, provavelmente o que tem mais probabilidade de criar esse tipo de sentimento nos cidadãos é Obama. Não por quem ele é, mas pelo que ele parece estar inspirando entre os cidadãos: ajudar as pessoas a resgatar seu senso de cidadania.
CULT - O que você acha desses novos governos de esquerda da América Latina? Como Hugo Chávez, na Venezuela, e Evo Morales, na Bolívia.
J.B. - É difícil colocar esses governos num bloco só. Cada um deles é diferente dos outros e tem problemas diferentes. No entanto, o que eles têm em comum é a sensibilidade de que o Estado tem papel importante para garantir a proteção dos interesses públicos e coletivos; e que, conquanto o mercado e as corporações também tenham papel importante, eles não são sagrados - são maneiras de alcançar objetivos públicos, em vez de um fim.
CULT - Você é a favor de programas de distribuição de renda como os que Lula está fazendo no Brasil?
J.B. - Tentativas sérias de promover uma distribuição mais igual de renda são cruciais e parabenizo o governo brasileiro por reconhecer esse fato. Mais importante: embora a redistribuição de renda seja particularmente urgente em países mais pobres, é também um problema crítico em países como Canadá e Estados Unidos.
Leia a íntegra da entrevista na edição de maio da CULT, já nas bancas

1 comentários:

Márcia disse...

Olá Sérgio Coutinho. Agradeço pelos comentários no meu livro de visitas. Temos, no seu blog, temas importantes, principalmente no que se refere aos direitos humanos. Você faz a diferença no mundo virtual.

Abraços.

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