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terça-feira, 27 de novembro de 2007

Sobre as greves dos canavieiros em Alagoas

DA GREVE DOS CANAVIEIROS E DO AMARGO DOCE DA CANA

Cícero Ferreira de Albuquerque*

As recentes greves de canavieiros de Alagoas exigem uma reflexão. Interessa-nos o que as motiva e as suas conseqüências. Importa saber das concretas condições de vida e de trabalho desses trabalhadores e trabalhadoras que impulsionam a mais importante atividade econômica do Estado. Consultando nossa literatura, encontramos Diegues Júnior, no Bangüê nas Alagoas, ainda na década de 40, nos dizendo que nossa história está marcada pela cana e que grande parcela da nossa população "vive ou vegeta em derredor da exploração do açúcar". Além de chocante, a expressão acima, usada para tratar das condições de existência no universo canavieiro, é atual. Nesse sentido, vegetar é o não-viver, é condição daqueles que tiveram e têm a sua condição humana reduzida, abstraída, negada.

Não precisamos de muito esforço para perceber as mudanças ocorridas no mundo canavieiro nessas sete décadas que separam a publicação da obra de Diegues Júnior dos dias atuais. Mudou muito quando o assunto é aprimoramento tecnológico, aumento da produção e controle da produtividade. O campo e a indústria foram modernizados. No livro Modernização e Pobreza, o geógrafo pernambucano Manuel Correia de Andrade afirma que na década de 50, "ocorreu em Alagoas uma verdadeira revolução agrícola, com a expansão dos canaviais pelos tabuleiros terciários, até então considerados impróprios à cultura da cana". A produção canavieira alagoana deu um salto em cima do outro nos últimos tempos. Grande parcela da cadeia produtiva está informatizada. Nossos usineiros exportam capital e implantam indústrias em outros unidades da federação, diversificam suas atividades econômicas, apresentam-se como modernos empresários e vendem os seus produtos, açúcar e álcool, para o mundo todo. Tudo em nome de uma maior capacidade competitiva, conforme as exigências do mercado global e da maximização do lucro.

O que mudou pouco ou quase nada foram as condições de vida e de trabalho dos trabalhadores e trabalhadoras, digo dos que cuidam do plantio e ainda mais gravemente dos que labutam no corte da cana. A realidade dos homens e mulheres que trabalham no mundo canavieiro é de calamidade. E essa é uma realidade nacional. Em 1999, com a obra Errantes do Fim do Século, Maria Aparecida de Moraes Silva, denunciou a super-exploração de que eram vítimas os canavieiros paulistas. Em todo o país, os direitos trabalhistas, conquistados com muita luta, são violados cotidianamente e o Estado brasileiro tem sido criminosamente omisso. São exigidos padrões cada vez mais desumanos de produtividade. Homens e mulheres são obrigados a trabalhar mais e mais para sobreviver; por isso, morrem por exaustão.

No conjunto, acertadamente, esse processo tem sido chamado de "modernização conservadora". Em pleno século XXI, o encontro com a realidade dos canavieiros é o encontro com uma realidade brutal, marcada pela extrema pobreza e pelo abismo da miséria social. Suas jornadas de trabalho são brutais. O dia de um canavieiro começa ainda de madrugada. Transportados quase sempre em condições precárias e com pouca segurança, muitos saem de casa às 3 ou 4 horas e retornam no começo da noite, depois de 10,11 e até 12 horas de trabalho sob um sol causticante. A maioria ganha entre R$ 12,00 e 15,00 por dia! Nessas condições, comem mal, moram mal e descansam ainda menos, se é que lhes é permitido pensar em descanso. Daí não ser exagerado dizer que é atual a expressão vegetar, utilizada por Diegues Júnior para definir a vida que levam essas pessoas, bem como ser possível entender por que chegam aos quarenta anos esgotados e o grito de dor e desespero que bradaram nos últimos dias.

As recentes greves não foram resultado da organicidade política dos canavieiros, não são fruto de uma ação sindical conseqüente, nem estão associadas a um combate consciente ao sistema capitalista, que revela no campo a sua mais cruel face; são resultado do recrudescimento da já absurda exploração praticada pelas usinas e da reação valente de uma gente que de forma impressionante mantém-se de pé! Nem o flagelo social, as pesadíssimas jornadas de trabalho e o esgotamento físico que deformam o corpo, agridem a alma e ferem profundamente a dignidade humana, foram maiores do que a fome de justiça desses trabalhadores que querem trabalhar e viver como gente.

A verdade é que essa situação do trabalhador rural é histórica. Essa compreensão é importante para que ninguém alardeie ou tente justificar a agonia dos muitos trabalhadores e trabalhadoras do canavial como resultado de um momento macro-conjuntural específico como o que se dá com a desvalorização atual do dólar, por exemplo. O discurso da "crise", tão utilizado pelas classes dominantes nesses momentos, é mentiroso. Em tempos de ´vacas gordas´ para o empresariado, a situação do trabalhador não muda. Quando o preço do açúcar sobe no mercado internacional e os empresários faturam muito, os trabalhadores não participam dos lucros, não melhoram de vida. O doce da cana não é acessível a todos.

Não podemos sublimar os recentes momentos de greve emprestando-lhes significados que eles não têm. As condições objetivas de espoliação brutal não foram nem tocadas, continuam intactas. Mas é importante compreender que o debate e a resistência contra as cruéis relações de trabalho no campo vêm crescendo no país todo e que isso acontece não só entre os trabalhadores canavieiros, mas também no meio acadêmico mais progressista. Está cada vez mais claro que essa é uma realidade que desafia não só os trabalhadores que tanto conhecem o amargo da cana, mas a todos nós que temos consciência e solidariedade de classe.

Por fim, um sinal muito positivo observado nas greves analisadas aqui brevemente foi o protagonismo dos trabalhadores nas três greves que vivenciamos nas últimas duas semanas. Em todas, os trabalhadores mostraram a cara, falaram, exigiram, enfrentaram a ameaça da polícia e dos esquemas de dominação que cada empresa tem para coibi-los. Essas ações, mesmo que carregadas de espontaneidade, carentes de organização e de lideranças legitimadas, indicam que os trabalhadores estão aprendendo que só com luta é possível realizar conquistas. Quem diria que um dia trabalhadores canavieiros sitiariam uma usina?

Historiador, sociólogo e professor universitário.

(Com exclusividade para este blog)

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